De vez em quando, meu lado pessimista desperta. Entro em um cruel pensamento de que o mundo esqueceu o que é “fazer cinema”. As mentalidades de hoje acreditam que não há beleza na simplicidade, que sempre necessita gerar um debate político, social ou até mesmo gritantemente filosófico. Eu não gosto disso, acho que há espaço para tudo neste mundo e para todos os gostos. Mas, infelizmente, encontro-me encostado em um canto sombrio de minhas ideias, maltratando-me com tais ideais, até que algo mágico acontece.

Apesar do enriquecido 2019 com uma grande diversidade fílmica, com tamanhos e gostos diversos, estava me faltando um último toque divino. Seria errado dizer que não me encantei com o que o já passado ano teve para me oferecer (“Coringa“, “Era Uma Vez em… Hollywood” e “História de Um Casamento” são alguns exemplos), mas, quando eu menos esperava, brilhou aquela pequena luz no meio de um gigantesco mar coberto por uma sombria névoa. Um farol brilhou para mim.

Quase de forma poética, Robert Eggers me entregou de suas mãos algo que talvez jamais devesse ser visto, algo tão íntimo e tão forte que me sentia dentro de sua carne. Ao sair da sala do cinema, foi difícil descrever o que eu sentia, nem ao certo consigo dizer se era uma emoção ou uma mistura de várias. O Farol de Eggers é, em suas quase duas horas de duração, tudo que eu amo em uma experiência cinematográfica.

Limitar esta obra a um simples “terror” é ofensivo. O diretor brinca com diversos tipos de narrativa para a construção de uma experiência única e marcante. Tem elementos do gênero de terror? Com certeza, contudo é possível ver elementos de drama, comédia e suspense. E tudo é muito bem conduzido pelo cineasta nessa que é somente sua segunda produção (sendo a primeira “A Bruxa”, de 2015). A simplicidade do roteiro de Eggers não seria bem traduzida se o projeto fosse colocado nas mãos de outro diretor, justamente pela tamanha dificuldade que é a realização dessa obra.

As cenas são simples, não são grandes momentos de ação com explosões para todos os lados, alguns momentos se limitam uma mesa de jantar e discussões entre os dois protagonistas. E, impressionantemente, através da sutileza, o roteiro cola nossa atenção na tela com sua construção de tensão e desenrolar da história.

Contudo o roteiro apresenta uma dificuldade: os diálogos. É um linguajar complexo e difícil para os dias de hoje, pertencente ao final do século XIX e a um determinado grupo, os marinheiros. Apesar da difícil compreensão, os debates são hipnotizantes, mesmo sendo, em diversos momentos, temas banais. Isso poderia ter resultado em algo completamente desagradável, se não fosse pelo talento dos escritores e pelas performances exemplares de Willem Dafoe e Robert Pattinson.

Os atores encaram o denso texto de Eggers com extrema maestria. Ambos compreendem o que é exigido e criam uma dinâmica em tela de prender sua atenção. Pattinson, que interpreta o faroleiro novato, se comporta como um veterano, apesar de sua relativamente curta carreira. A obsessão e a curiosidade incorporam o personagem ao longo do desenrolar da trama e o ator entrega talvez a melhor performance de sua carreira.

Já Willem Dafoe traz uma carga bem maior que seu companheiro de tela, resultando em uma das melhores interpretações do ano. Suas feições carregam uma história, a história de um velho lobo do mar, um faroleiro obcecado em não permitir o personagem de Pattinson explorar a sua preciosidade que é a luz no topo do farol. Os monólogos que o personagem tem durante o filme são hipnotizantes, seus gritos e paranoias são, ao mesmo tempo, momentos aterrorizantes e belos.

Isoladamente, o trabalho de ambos é fenomenal, porém, na interação, nos deparamos com uma dinâmica inusitada e impressionante. Uma mistura sexual, autoritária, abusiva e companheira que guia esse relacionamento. São momentos de confronto, momentos de submissão e momentos de amizade que permitem essa dinâmica inigualável e poderosa, tudo graças ao talento dos atores, roteiristas e do diretor.

Se já não bastasse toda a excelência apresentada, Eggers vai além e nos fornece possivelmente a fotografia mais bela dessa temporada. Foi a decisão mais acertada em produzir o filme em preto e branco e filmá-lo em 35mm (o que permite o aspecto quadrado da imagem), referenciando a aparência dos filmes do movimento expressionista na Alemanha (filmes como “Nosferatu” e “O Gabinete do Dr. Caligari” a respeito dos quais o brilhante Thotti Cardoso falou aqui). A tela reduzida e a escolha do preto e branco resultaram em momentos de encher os olhos. Por exemplo, em uma cena de jantar, iluminada por uma vela na mesa, o fundo escuro e a parte embaixo da mesa ficavam pretas, deixando somente o topo brilhar, de modo a prender nossa atenção ainda mais. É uma história que exigiu esse tipo de imagem e se fosse feito de qualquer outra maneira ficaria bastante inconsistente com a proposta do diretor.

Com esses pontos colocados, eu vi aqui uma ode de amor ao cinema, um amor ao “fazer cinema” e é esse tipo de ideologia que me atrai, muito mais do que uma mensagem filosófica ou política com uma execução feita pela metade. Acho essa ideia amar fazer filmes forte a ponto de me emocionar, O Farol me emocionou, me tirou do lugar comum e me mostrou a Arte, com “A” maiúsculo.

Seja lá qual for a maneira como você irá interpretar os ocorridos do filme, com um olhar mitológico, ou de um ponto de vista lovecraftiano, ou de uma maneira filosófica, acredito que todos podem concordar que, a simplicidade – a história de dois faroleiros presos em uma ilha – basta para fazer um filme verdadeiramente especial, fazendo esse humilde amante de cinema remar até aquela pequena ilha no meio do gigantesco mar coberto por uma sombria névoa e me encantar com a luz no meio da escuridão.

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