Mergulhando mais intensamente no que costuma ser uma obra argentina, o novo lançamento da Netflix lapidado em thriller, com muitas pinceladas de drama, traz uma jornada bem interessante e pouco trivial na velha temática da construção familiar. Tudo isso com – a meu ver – clara inspiração de Roman Polanski em seu memorável “O Bebê de Rosemary”. Esse mix de elementos nos coloca próximos ao olhar insano de seus personagens, deixando-nos, a cada instante, sem a menor base sólida que possa nos guiar em um caminho completamente obscuro e pleno de reviravoltas. É isso que encontramos em O Filho Protegido.

O artista pintor Lorenzo (em grande performance de Joaquín Furriel) é casado com a escandinava Sigrid (Heidi Toini) e, assim como seus amigos próximos Renato (Luciano Cáceres) e Julieta (em firme atuação de Martina Gusman), estão tentando ter um filho. Diferente do casal de colegas, porém, eles conseguem. Mas o tão sonhado momento começa a se tornar pesadelo quando Sigrid muda a sua forma de agir, levando Lorenzo ao limite de suas forças física e, principalmente, emocional e psicológica. A até então frágil bióloga Sigrid se torna uma tirana a ditar regras, impondo como o filho deve ser tratado e educado: o parto é caseiro, com uma senhora conterrânea, na figura de governanta daquele lar; o afastamento das relações sociais do garoto são determinadas; automedicação por parte da progenitora; e tudo isso sem o consentimento do pai, que fica atordoado diante de tamanha loucura.

O olhar lunático de uma vítima ou de um algoz?

A narrativa nos leva em um paralelo entre o antes e o agora: do projeto de se ter um filho à separação após falta de entendimento entre as partes. Tudo, porém, aponta contra aquele que parece ser o nosso protagonista. Ex-alcoólatra, pai ausente de duas filhas que moram no Canadá, pintor não muito bem-sucedido, que considera um plano inescrupuloso por parte de sua, então, ex-mulher, doutora em biologia e sem nenhum antecedente contrário. O conflito entre as partes é pouco simpático ao progenitor, que insiste no jogo sórdido da antiga companheira. Apesar disso, aos olhos tapados da lei (como quer a representação da Justiça), apenas se ouve o lado aparentemente menos frágil dessa disputa de poder. A narrativa insistente de Lorenzo é colocada em cheque por algumas cenas que o diretor Sebastián Schindel nos propõe, deixando-nos, como dito anteriormente, sem qualquer coisa a se apegar; sem a menor orientação a se basear. É a mulher louca, é o homem, são os dois? O que, de fato, aconteceu? O que foi a visão de Lorenzo? Estamos soltos em uma história que se desenvolve de forma inesperada.

Em um desenvolvimento narrativo no qual o carisma dos coadjuvantes é bem maior do que o dos protagonistas, ficamos frios diante do que acontece. O que nos resta é passar a torcer para um ou outro lado, desejosos de que estejam certos; e, consequentemente, que nós estejamos certos. Mas, em momento algum, estamos seguros da posição tomada. O jogo habilidoso de Schindel, em sua firme direção, resulta em uma constante quebra de expectativas, que nos empurra de um lado para o outro, como joguetes maleáveis, tal qual Lorenzo, que é engolido não só pelas circunstâncias, mas também por seus atos desmedidos e intempestivos. Assim como um Hitchcock, que nos tira dos trilhos confortáveis de uma história aparentemente trivial, O Filho Protegido nos faz duvidar daquilo que estamos contemplando. Diferente da proposta norte-americana de produzir filmes que sempre trazem uma mensagem pela construção do núcleo familiar, a produção argentina nos leva para a conflituosa teia frágil e traiçoeira das relações pessoais dentro da família.

A dupla que nos leva ao limite.

Bem medido tanto em seu thriller quanto no drama e naquele toque mais tenebroso do aludido “O Bebê de Rosemary” (sem enveredar pelo lado sobrenatural da coisa), o filme consegue envolver com firmeza seu espectador. O ritmo da narrativa é bem marcado, mastigando-nos a cada cena, como o Saturno de Goya a triturar seu filho. E tal qual um quadro a ser contemplado e interpretado a partir de seus elementos, assim conclui o filme: mais sugestões do que respostas concretas, ficamos com as nossas impressões, deduções e certezas próprias. Não há necessidade para maiores explicações, a natureza humana já nos dá suas verdades.

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