Faz alguns anos que fomos mergulhados em vários títulos japoneses de terror, que posteriormente vieram a ganhar seus remakes americanos. Uns readaptando tudo para a América, outros colocando americanos no meio de japoneses, mantendo um pouco do cenário, mas refazendo o terror ao modo ocidental. O fato é que faz muito tempo e eu já não me lembro muito mais de qual era o que, chegando a misturar tudo nas minhas lembranças. Passado todo esse tempo, não os revisitei; tampouco para acompanhar a nova estreia japonesa da Netflix: O Grito – Origens (este que também fora alvo do processo acima descrito). Dessa forma, não me deixei levar por memória afetiva ou até mesmo por qualquer lembrança das obras pregressas. Envolvi-me tão somente com a breve série de 6 episódios de cerca de 30 minutos cada.

Um pesquisador de histórias de terror está a coletar contos reais desse gênero para a confecção de um livro sobre o tema. Sempre que questionado sobre o motivo acerca dessa ação, o escritor não sabe responder; entende que este é seu trabalho e somente segue seu instinto. Em sua jornada pela busca por essas história, seu caminho se cruza com pessoas que experimentaram uma sombria atividade paranormal, digna de sua atenção. Acontece que o principal ponto de partida dessas experiências é uma casa, cujo endereço não lhe é revelado para que não corra perigo. Diante disso, e ávido por encontrar a tal casa, o escritor segue em sua busca, enquanto contempla a inexplicável perda de vida de alguns de seus confessores.

A busca por respostas.

Iniciando sem muito do terror que uma obra desse tipo sugere, com o passar dos capítulos o negócio vai ficando de fato assustador. Porém, não há nem de perto um apelo do terror pelo terror, um uso abusivo do tão falado “jump scare“, ou uma obra que se reduz a causar. Não que não tenha essas coisas, mas não há pelo simples fato de se justificar essa narrativa. Isto é, há uma obra e há terror nela. E não o contrário: visto que muitas vezes nos deparamos com narrativas que são meras justificativas para suas sequências de susto ou medo. Aqui há desenvolvimento de personagens, há o desvendar de seus traumas pessoais e um toque de drama em cada um de seus protagonistas, que encorpam a história de tal forma a torná-la muito mais interessante. O tom constante em toda a série consegue unir, sem prejuízo, o terror e o drama. Não abdicando ou prejudicando um pelo outro.

Por outro lado, a impressão que dá é que poderiam ter mais alguns episódios. Os conflitos se abrem, mas não se fecham em sua plenitude. E não estou a dizer com isso que me faltaram respostas. Eu sempre digo que prefiro as lacunas ao filme que me explica cada detalhe seu. Gosto de participar ativamente da narrativa, buscando seu preenchimento a partir do que a história me entrega. No entanto, apesar de parecer que tudo foi muito concluído no 6º episódio, temos a clara sensação de que nada nos fora de fato dito. As origens – em referência ao título – foram tão somente aludidas, mas jamais justificadas. Espero que isso seja apenas um cartão de visitas para novas temporadas que, porventura, venham a surgir. No entanto, o que nos foi contado enquanto primeira temporada parece ter deixado a desejar em alguns momentos, muito embora haja uma estrutura bem definida e com personagens que valem a espera e o desejo pela continuação.

Acompanhando cada passo.

Buscando ser diferente dos filmes e seus remakesO Grito – Origens tem muito mérito pela atmosfera que cria ao longo de todos os seus seis curtos episódios. E quando me refiro a esta atmosfera, de modo algum estou a me basear no que de terror ela pode trazer. Aqui, o gênero aparece como elemento adicional à trama produzida e não como sua principal característica. Levados por assombrações inexplicáveis, o que mais nos deixa atônitos e em horror são as ações sobretudo humanas, colocando os espíritos em um segundo plano meramente metafórico para o horror da existência e das realizações mundanas e particulares ao ser humano.

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