“Desde a Alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato ou um contrato […] Era através de suas palavras que se reconhecia a loucura do louco; elas eram o lugar onde se exercia a separação; mas não eram nunca recolhidas nem escutadas.” (FOUCAULT, 1996, p. 10–11).

O primeiro ponto a ser comentado aqui é que esse não é um filme comum. Apesar de parecer mais uma mera adaptação de um clássico da literatura, o filme representa, em sua essência, as vicissitudes de qualquer produção artística, que envolve o dilema existencial de fazer uma ideia se transformar em realidade. Portanto, afirmo categoricamente que O Homem que Matou Dom Quixote, seja pelo roteiro final apresentado, seja pelos bastidores e história de sua produção, funciona como uma metalinguagem para a complexa máquina de produção cinematográfica.

Nesse sentido, a produção idealizada por Terry Gilliam e Tony Grisoni no final dos anos 1980 se estendeu pelas décadas seguintes sem muita esperança de ser finalizada, sempre à mercê de mudanças no roteiro, falta de verba para a produção e imprevistos com o elenco – que chegou a incluir Johnny Depp para o papel principal nos sets e preparativos das filmagens nos anos 2000. A saga da produção do longa chamou atenção da indústria, virando uma espécie de lenda entre os profissionais da área e os amantes da sétima arte, sendo inclusive objeto de um documentário – : “Lost in La Mancha”-  sobre os percalços enfrentados pelos produtores. E por falar neles, toda a história e os bastidores da saga podem ser lidos em capítulos através do site do filme.

Em 2017, apesar da descrença geral, a saga parecia finalmente ter encontrado um rumo, após novas mudanças no roteiro: não mais interessado em fazer uma mera adaptação do livro de Cervantes, Terry Gilliam construiu uma nova perspectiva para seu longa, buscando retratar talvez a própria saga pessoal, contando a história de um cineasta famoso porém vaidoso que tenta dar forma ao seu filme sobre Dom Quixote – aliás, depois de já ter esboçado um filme sobre o mesmo tema quando mais novo -. mas parece empacado no mesmo lugar, sem as ideias inovadoras de sua época de juventude.

Acompanhamos a partir daí uma narrativa que, em sua camada mais superficial, parece ser uma mera aventura cômica, recheada de elementos surrealistas: eis que o cineasta Toby, interpretado pelo sensacional Adam Driver, resolve abandonar as filmagens do seu novo longa sobre Dom Quixote para visitar a antiga vila espanhola onde gravou o filme de seu projeto final da faculdade com a mesma temática, mas com ideias muito menos comprometidas com os jogos de interesse da indústria midiática. Ao relembrar os tempos de produção de seu antigo filme, Toby resolve procurar os habitantes locais que ele usou como atores e descobre que trabalhar em seu filme teve consequências para eles.

Toby descobre que o velho sapateiro Javier (Jonathan Pryce), que ele havia convencido a interpretar Quixote, seguiu um caminho sem volta após a conclusão do filme, relendo tantas vezes a história de Cervantes que passou a acreditar que era de fato o velho hidalgo espanhol, numa clara referência aqui a história original do personagem. Arrastado pelos devaneios de Javier e pela própria moralidade duvidosa, Toby se vê vagando pelas montanhas e pequenos vilarejos locais atrás de Javier, que segue deliberadamente suas ilusões.

A narrativa mescla o mundo imaginário de Javier com o mundo real, fazendo o personagem de Driver se questionar sobre sua própria sanidade. Aliás, numa camada mais profunda do longa, o tema loucura x sanidade atravessa a narrativa, servindo como base para o personagem do cineasta questionar seu lugar no meio cinematográfico, sobretudo no que diz respeito à sua ética de trabalho e inspirações. Nesse ponto, os diálogos entre os personagens, inspirados claramente no clássico da literatura, são bem sucedidos em criar o conflito para o personagem principal, fazendo-o repensar suas prioridades e atitudes. E, é claro, as atuações de Driver e Pryce deixam no chinelo o resto do elenco, sendo exageradas e viscerais em muitos momentos, mas com um timing pra comédia e dramaticidade perfeitos.

A direção de arte e figurino – segundo Gilliam inspiradas na arte sombria de Goya e Doré – tem um lugar destacado no sucesso visual do filme, cuja fotografia é realmente valorizada pelas locações ibéricas. O arquétipo miserável e sujo dos personagens é quebrado pela riqueza em detalhes visuais, texturas e cores, contribuindo para o ar de surrealismo de várias tomadas. Além disso, a trilha sonora é carregada e exagerada, contribuindo para a pegada teatral de vários trechos.

Porém, em minha concepção, nem tudo são flores em O Homem que Matou Dom Quixote. Alguns problemas no roteiro fazem o filme se estender além da conta, sendo cansativo e incompreensível em alguns momentos, criando uma certa impaciência pra quem assiste. Além disso, o arco de alguns personagens não chega a lugar algum, enquanto outros parecem ter sido utilizados como um mero acessório na narrativa, desmerecendo o valor real do longa. Mesmo assim, o filme consegue garantir um lugar entre as produções cinematográficas inovadoras e criativas dos últimos anos, sendo inclusive uma interessante fonte para trabalhos sobre literatura comparada.

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