Até o que agora parece longínquo ano de 2015, eu trabalhava com Direito há mais de uma década. Primeiro comecei como estagiário, basicamente indo a fóruns do Brasil todo a mando dos advogados tentando fazer com que algum processo corresse com a celeridade que a lei garante a todos que deve correr. Depois, já como o “adevogado” clássico, era eu quem mandava os estagiários aos cartórios além de eu mesmo ir conversar com serventuários, juízes, desembargadores e toda sórdida sorte de funcionário público do judiciário. O que me fez abandonar a profissão e me tornar um proxeneta profissional foi justamente o fato de ter percebido que muito pouco do resultado do meu trabalho – das minhas petições, recursos e argumentos em geral – dependia de mim, mas quase tudo dependia da competência e, principalmente, boa vontade de todos os funcionários públicos que compõem o sistema. E o sistema, meu amigo, o sistema é foda, como já diria o nosso grande herói nacional Capitão Nascimento.

“Ora, Gustavo, foda-se a sua carreira como advogado”, você deve estar pensando. E você tem toda razão. Foda-se mesmo. E foda-se com força. Eu só a invoquei acima, às custas da minha qualidade de vida e sanidade mental, de modo a ilustrar o quanto eu me identifiquei com a trama do novo filme policial da Netflix, O Informante. Aqui acompanhamos o ex-herói de guerra e condenado Pete Koslow (Joel Kinnaman), um sujeito que muito rapidamente o filme nos mostra ser uma boa pessoa que se meteu com a galera errada e tenta se redimir disso ao trabalhar como informante para o FBI infiltrado na máfia polonesa de Nova Iorque.

Acontece que o sistema, meu amigo, o sistema é foda. E Pete, totalmente dependente desse sistema e da boa vontade das pessoas que o compõem para o seu trabalho de informante, vai se foder de verde e amarelo ao longo de todas as quase 2 horas de exibição do longa. Obviamente, apesar de eu e todos vocês também sermos fodidos por um sistema que parece existir só para atrapalhar as nossas vidas – em vez de ajudar como é o que a gente acreditava ser o caso quando assinou sem saber de porra nenhuma o pacto social ao nascer -, Pete consegue levar essa tomação de cu a um nível ainda mais inacreditável.

O filme de Andrea Di Stefano – diretor italiano de pouca expressão e experiência com sobrenome de craque de futebol – traz a história de Pete embalada em uma trama de filme policial genérico e que faz inclusive um belo esforço para ser genérico em sua produção. Temos uma trilha sonora genérica, uma cinematografia genérica, vilões genéricos do tipo mau igual ao pica-pau, um mocinho (genérico) que o filme nos convence ser gente boa muito embora trabalhe há anos para uma organização assassina e atuações qualquer nota em sua maior parte. Basicamente, o que temos aqui é, assim como foi o caso com “A Força da Natureza” há algumas semanas, uma produção que na década de 90 teria tudo para ser lançada direto em VHS e DVD. O que o difere dos demais são duas coisas: os diálogos e a atuação de três de seus principais atores.

Aproveitando o gancho de “A Força da Natureza“, naquela crítica (cujo link está aí) eu falei extensamente sobre a minha decepção por ver um cara da estatura de Mel Gibson sendo coadjuvante de filme meia boca, mas ainda assim sendo a melhor coisa dele. Em O Informante, mais uma vez eu fui acometido pela mesma sensação. Se o declínio de Mel é explicado pelo seu cancelamento a respeito do qual também falei na crítica do outro longa, o de Clive Owen não se explica. Queria lembrar a todos que este senhor hoje com seus 50 e poucos anos, é responsável por uma das mais antológicas atuações da história do cinema no excelente “Closer”, pela qual foi indicado ao Oscar (perdendo para Morgan Freeman em “Menina de Ouro”), tendo protagonizado ainda alguns dos melhores filmes dos anos 2000, como o já citado “Closer”, “Filhos da Esperança” (em minha opinião a melhor ficção científica já feita), “O Plano Perfeito”, dentre muitos outros. Vê-lo primeiro como vilão merda em filme merda em “Projeto Gemini” já me machucou, mas lá pelo menos se tratava de uma grande produção, mas vê-lo aqui só com uns 5 minutos de tela doeu bastante, muito embora ele seja a melhor coisa do filme, tal qual Mel no outro.

Dito isso, outra coisa que estranhei é uma mulher como Ana de Armas, que já alcançou um certo status no panteão hollywoodiano, ser escalada para fazer o clássico e sem graça papel da mulher do mocinho em um filme desse naipe. O mesmo vale pra Rosamund Pike, atriz laureadíssima e tida como das melhores de sua geração, também aqui no elenco de um filme que não propõe lá muita coisa. O único que parece estar onde devia mesmo é o grande protagonista, Joel Kinnaman, um cara que, apesar de bom ator, parece que jamais vai conseguir entrar no rol de grandes estrelas de Hollywood por ter um carisma semelhante ao de um nabo.

O que temos aqui é um filme policial competente, que mostra a luta de um homem contra um sistema que ele, arriscando a própria vida e a de sua família, se propôs a ajudar, somente para ser massacrado por tecnicalidades e por gente mais preocupada com sua própria carreira do que com qualquer outra coisa. É uma analogia para a vida, sem dúvida, mas é também uma obra interessante que traz bons atores em bons diálogos e situações, além da população carcerária mais ameaçadora que eu já vi na vida.

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