1995. Grandes Herói Marvel nº 50. 132 páginas do Justiceiro, gloriosamente ilustrado pelo lendário John Romita Jr., chacinando impiedosamente toda uma família mafiosa na qual havia se infiltrado em uma história apropriadamente chamada “O Homem da Máfia”. Nesta época, eu tinha 13 anos e, com esse gibi, Conan ganhava um amiguinho lá no topo dos meus personagens favoritos de quadrinhos.

O que me fascinava (e, confesso, ainda fascina) em Conan e no Justiceiro era basicamente a mesma coisa. Dois homens patológica e incrivelmente dedicados àquilo que são e às suas convicções: esmagar os inimigos e ouvir o lamento de suas mulheres para Conan e simplesmente obliterar tudo aquilo que seja criminoso no caso do Justiceiro. Personagens simples, obstinados e que se recusam a fazer qualquer concessão ao que são.

Talvez seja por causa dessa expectativa pré-adolescente que a mais nova série original da parceria Marvel/Netflix, O Justiceiro, me incomoda um pouco. O Frank Castle de Jon Bernthal é perturbado demais, sente demais o fantasma da sua família brutalmente assassinada. O roteiro se embrenha por um caminho de teoria da conspiração, com funcionários do alto escalão das agências de inteligência americanas e uma confusão fodida de jurisdição entre suas milhões de siglas.

A coisa é feita de tal forma que eu sinceramente não sei qual motivação que ele terá para continuar matando vagabundo em uma probabilíssima próxima temporada. Este Justiceiro não tem a mesma sanha assassina que tem o dos quadrinhos. Aqui ele é só (e é um “só” que massacra incontáveis inimigos) um espírito de vingança. Se nos quadrinhos a sua sede de sangue vem da chacina de sua família como consequência de um tiroteio entre bandidos no Central Park que eles casualmente testemunharam, aqui a morte de sua família, como já havia sido estabelecida na 2ª Temporada da série do Demolidor, é deliberada e específica, como uma forma de queima de arquivo. Se lá ele mata bandidos em geral porque são, em sua mente, os que mataram sua famíia, aqui ele não está preocupado com traficante e estuprador, mas só mesmo com seu objetivo pessoal.

Dito tudo isso, deixando claro o meu incômodo com a caracterização desse Justiceiro e passando por cima de qualquer expectativa (e a expectativa é a mãe da frustração), é impossível negar que O Justiceiro é uma série de ação competente, que, à exceção da agente da Homeland Security (e, honestamente, todo aquele núcleo) Dinah Madani (Amber Rose Revah), o elenco todo está azeitadíssimo, que a performance de Jon Bernthal como um atormentadíssimo ex-fuzileiro é estelar e que o seu antagonista é, na melhor tradição dos quadrinhos, seu absoluto contraponto.

Logo no primeiro episódio, descobrimos que Castle/Justiceiro terminou de limpar da face da Terra todo mundo que tinha alguma nesguinha de participação no massacre de sua família e agora, 6 meses depois, ele simplesmente vive. Sem rumo, vivendo por porra nenhuma e apenas vendo os dias passarem enquanto ele tem flashbacks constantes com a sua família e com a culpa que lhe consome a alma por ter sobrevivido. Eventualmente ele descobre que ainda falta uma galera para morrer do pessoal que participou da morte de sua família e, com a ajuda de Micro (Ebon Moss-Bachrach), que também tem sua própria agenda a cumprir, sai por aí executando a sua vingança até que, mais uma vez, não sobre nenhum dos culpados.

Bernthal traz para este Justiceiro a patologia crônica e óbvia de quem sofre de estresse pós traumático, seja pela guerra, seja por ter testemunhado a morte dos que amava. Seus olhos estão sempre sem vida, seus movimentos calculados e a utilização mais visceral do próprio gogó enquanto instrumento de cena que eu já vi. Nesta mesma esteira, vem aquele que é responsável, ao meu ver, pelo principal defeito da série: a necessidade onipresente da recente produção cultural americana de apresentar um subtexto liberal e politicamente correto em absolutamente tudo que se faz, no caso aqui, a questão dos veteranos de guerra.

Que se registre aqui que, sim, há bastante razão no argumento de que um país que manda os seus para a guerra e os ordena a fazer coisas indizíveis deveria, sim, recebê-los com mais humanidade, carinho e preparo. Isto não se discute. O que se discute é a obsessão com tentar imprimir um discurso político em um produto que visa, em sua essência, mostrar um sujeito matando centenas de outras pessoas em busca de justiça.

Apesar de salutar, esta escolha do roteiro de mostrar uma subtrama a respeito dos veteranos de guerra e de como o país os recebe de forma insatisfatória prejudica em muito o ritmo e o foco da obra. Perde-se muito tempo para se fazer um ponto político que acaba por ser bem raso e clichezento (e nem poderia ser diferente em uma série de ação como essa), além de não avançar em quase nada a narrativa. Assim como aconteceu com as demais séries Marvel/Netflix, o problema de ritmo aqui é claro, mas, ao contrário das outras, ele é facilmente identificável e passa a impressão de ter sido uma deliberada encheção de linguiça, no sentido de que “pagaram por 13 episódios, então aqui vão 13 episódios e, de bônus, ainda um verniz de politização e intelectualização da problemática dos veteranos”.

De toda forma, nada, absolutamente nada, é mais catártico e delicioso do que ver Frank Castle liberando toda a sua fúria contra aqueles que lhe fizeram mal. Em cenas de ação em geral banhadas em sangue e muito bem feitas, Jon Bernthal é quase que uma força da natureza ao nos pegar pela mão e levar-nos junto com ele em toda a carnificina que promove a cada episódio. Estas cenas vão ficando cada vezes melhores, muito embora, no meio do caminho, haja um episódio em um hotel em que a ação parece ter sido pensada e coreografada por alguém que não conhece o personagem ou por uma criança.

Sofrendo com episódios iniciais em que não acontece lá muita coisa, a série decola a partir do 4º ou 5º episódio, em especial quando Billy Russo (Ben Barnes) ganha mais foco. Para quem é fã do Justiceiro nos quadrinhos, o mero nome desse sujeito já é um spoiler violento da história, mas, para quem não é, basta dizer que a performance de Ben Barnes é nada menos que perfeita para o que se propõe o personagem. Um veterano de guerra bonitão, gente boa e com muita coisa revelada no olhar.

No geral, O Justiceiro é uma série de ação que cumpre até com certo louvor seu papel. É, à exceção da 1ª temporada do Demolidor, a melhor temporada de uma série Marvel/Netflix feita até aqui e, embora não se mantenha fidelíssima às origens e motivações do personagem dos quadrinhos, a série é, como já era de se esperar, violentíssima, extremamente gráfica nessa violência e, em geral, muito bem encenada.

Boa parte disso se deve ao soberbo casting. O elenco, mesmo sem a necessidade de trazer aqui níveis e mais níveis de drama para seus personagens, entendeu perfeitamente o que cada personagem é e o personifica com muita competência, com destaque absoluto para Bernthal e Barnes.

O Justiceiro, portanto, faz justiça (rá!) à essência do personagem e entrega irregulares 13 episódios de 50 minutos mais ou menos cada um, mas que, no apanhado geral, é bem competente no que se propõe.

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