Quando o Super-Homem foi criado pelo escritor Jerry Siegel e pelo desenhista Joe Shuster em 1938 o mundo ainda acreditava naqueles valores morais que aparecem nas lendas da Távola Redonda. Um herói deveria ser o exemplo máximo de retidão, justiça, bondade e sacrifício, inspirando os mais jovens a buscarem tais ideais, e, por isso mesmo, o destino os abençoaria e protegeria já que, obviamente, o bem sempre triunfa. Havia um otimismo inocente em tais ideais e histórias de super-heróis mantinham esse raciocínio. Certos limites jamais eram ultrapassados. O herói serve ao povo, jamais o governa. Seria fácil de se imaginar um ser super-poderoso proclamando-se imperador do mundo sem que os simples mortais pudessem confrontá-lo. O herói jamais usa seu poder em benefício próprio. Também seria difícil impedir que um semi-deus tomasse à força qualquer coisa que seus caprichos desejassem. Acima de tudo, o herói não mata. Ele jamais pode ser juiz, júri e executor. Independente do crime que o vilão cometa, é função do herói entregá-lo à justiça para que seja julgado segundo as leis em vigor.

Tais valores eram simples de compreender quando o Coringa era um ladrão de bancos que se fantasiava de palhaço e deixava pistas engraçadas e não ainda um assassino psicopata sem nenhum tipo de escrúpulo. Mas à medida que a humanidade retornou aos tempos romanos, aplaudindo a carnificina dos gladiadores e deleitando-se abertamente com a violência, os vilões foram tornando-se cada vez mais válvulas de escape para o sadismo enrustido nos leitores. Aplaudimos, com olhos sedentos, a cada Coringa mais frio e sanguinário que o anterior e, no entanto, há dentro de nós a sensação de que os heróis têm que manter o secular código do paladino da justiça. Mas e se o herói se cansar de apanhar sem ver em sua luta e seu sacrifício pessoal qualquer gota de esperança no tão desejado “mundo melhor”?

Essa é a premissa de O Legado de Júpiter, adaptação do quadrinho homônimo, lançado pela Netflix sexta-feira passada. Aqui encontramos um grupo de super-heróis de cabelos brancos e rugas nos rostos, abatidos e desmotivados, lutando contra super-vilões cada vez mais poderosos e violentos, tentando se manter vivos enquanto treinam uma nova geração de superpoderosos para substituí-los. O grupo, chamado “The Union” é uma versão disfuncional da Liga da Justiça e é liderada por um herói chamado “Utopian”, a versão hippie do Homem de Aço que ainda segue cegamente ao que na história é referido apenas como “O Código” (não matar, não governar, não falar palavrão…). Ele é casado com Lady Liberty (basicamente a Supergirl) e juntos eles têm um casal de filhos: Brandon, que luta arduamente para se provar merecedor do respeito do pai e seus ideais impossíveis de se atingir, e Chloe, a irmã mais nova que desistiu já há muito tempo, entregando-se de braços abertos a toda a decadência que seu nome pode comprar.

Durante uma violenta luta contra um poderoso super-vilão, Brandon se vê dividido entre salvar a vida dos pais e manter os valores defendidos pelo “Código”, e decide salvar sua família, matando o vilão com grande facilidade. Tal decisão inédita cria fortes atritos dentro da família e da “The Union”, bem como gera repercussões perigosas com a opinião pública, algumas pessoas acusando-os de hipócritas, outros aplaudindo a execução. A morte também gera uma escalada de violência por parte dos vilões, tornando o trabalho dos super-heróis ainda mais perigoso.

A série foca no núcleo familiar e explora a relação desgastada entre pai e filhos, com uma mãe que, ao mesmo tempo que tenta botar panos quentes na rigidez do marido, também já se percebe cansada de tanto apanhar sem perceber resultados significativos no mundo ao seu redor. Em paralelo, descobrimos ao longo dessa primeira temporada como os heróis originais – os de cabelos brancos – ganharam seus poderes, na década de 1930. Os saltos temporais entre o passado e o presente criam paralelos e contrastes entre os valores do início do século XX com o que vivemos hoje, quase 100 anos depois. Há várias referências aos quadrinhos de super-heróis, bem como a Indiana Jones e Lovecraft no núcleo dos anos 30, e o contraste entre os dois cria uma dinâmica interessante e divertida.

Confesso que os trechos passados há 100 anos foram mais interessantes e mais bem realizados. Há alguns engasgos com a produção do núcleo 2021: perucas mal colocadas (muitas, muitas perucas… como tem perucas nessa série!!), maquiagens que deveriam envelhecer os atores que formam o time original mas que parecem algo que veríamos no Castelo Rá-Tim-Bum, efeitos por vezes bacanas, por outras meio só pra que houvesse um efeito. No entanto houve um cuidado pra que a série se parecesse muito com os quadrinhos. Tenho o primeiro gibi do título numa edição especial com o traço original do ilustrador Frank Quitely, em preto e branco, e os personagens ficaram mesmo muito parecidos com o que seus criadores idealizaram, ao menos esteticamente. Não conheço o restante da narrativa dos quadrinhos, mas imagino que a série também siga o gibi bem de perto.

Há muita coisa legal, e um outro tanto meio mazomeno, mas a ideia de uma família de super-heróis com todos os conflitos internos que a profissão dos pais (e sua frequente ausência enquanto salvam o mundo) possa gerar bem, como todo o ambiente sócio-político atual (polarização e extremismo) presente em um mundo onde seres superpoderosos existem e escolhem o lado do bem, do mal e, às vezes, o seu próprio lado fazem da série uma boa opção pra quem procura uma novidade no universo dos super-heróis.

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