No país onde a cada 19 horas um LGBT é assassinado ou se suicida vítima da “LGBTfobia” (o que faz do Brasil o campeão mundial desse tipo de crime), onde o presidente da República se elegeu, dentre outros fatores, pela forte pauta anti-LGBTQI+ e onde a alusão ao termo “identidade de gênero” virou sinônimo de caça às bruxas de professores, um filme que retrata a “cura gay”, mesmo ambientado em outro país e em outro contexto histórico, merece ser visto.

Vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Sundance em 2018 e exibido pela primeira vez no Brasil na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa O Mau Exemplo de Cameron Post , inspirado no livro homônimo da escritora Emily M. Danforth, de 2012, narra o drama de uma adolescente submetida a um tratamento de “correção”, de base essencialmente religiosa, com a promessa de consertar sua “confusão de gênero”, descoberta após o namorado da garota encontrá-la transando com uma colega de escola.

O filme tem roteiro adaptado e é dirigido por Desiree Akhavan, cuja experiência cinematográfica é marcada por obras dentro da mesma temática de identidade de gênero e sexualidade, o que podemos perceber pela sensibilidade com a qual a narrativa é trabalhada na tela. No desenvolvimento da história, vemos Cameron Post (Chloe Grace Moretz) ser submetida pela tia Ruth (Kerry Butler) a uma rotina de isolamento social e terapia em grupo, com rígido controle da instituição religiosa.

A vigilância sobre as atividades dos membros do grupo é constante, representada pelos líderes da instituição: reverendo Rick (John Gallagher Jr.) e sua irmã, Dra. Lydia Marsh (Jennifer Ehle), acompanham diariamente a rotina dos jovens, atuando em sua “reeducação” sexual, que consiste basicamente na aplicação de uma moralidade cristã radical e da negação constante da personalidade individual. Na interação desses personagens com o grupo de adolescentes é que vemos a maior parte dos melhores diálogos da película, com cenas que atingem em cheio qualquer espectador sensível à temática, causando desconforto por presenciar a lavagem cerebral absurda a qual seres humanos foram e ainda são submetidos única e exclusivamente por suas condutas sexuais.

Encontramos aqui o velho discurso religioso, que transforma todos em pecadores incondicionais, imorais e “sujos”, aliado ao cientificismo acadêmico representado pela presença de uma psiquiatra, cuja função é dar cabo da confusão mental de quem se interessa pelo mesmo sexo, construindo a premissa básica das chamadas “terapias de cura gay”. No filme, o “tratamento” se baseia na abstinência sexual e na subserviência aos preceitos morais, o que gera situações de gratuita humilhação humana, que devem servir para purificar a alma dos pecados cometidos pela carne.

Porém, como em qualquer cenário opressor, há resistência, representada pelos jovens Jane (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck), cujas personalidades e força emocional os blindou da manipulação psicológica da instituição, fazendo com que permanecessem lúcidos e sem abrir mão de suas identidades e desejos. Cameron se identifica imediatamente com a dupla, junto da qual forma um refúgio, rendendo-nos cenas bonitas de cumplicidade e apoio que serão muito importantes para a personagem manter sua identidade e saúde psicológica.

Em termos de profundidade emocional, o roteiro apresenta um bom trabalho para a maioria dos personagens, cujo arco narrativo é interessante e até surpreendente, e certamente bem executado pela ótima atuação do elenco. Certamente merecem destaque aqui John Gallagher Jr., na pele do Reverendo, e Owen Campbell, que vive o jovem Mark e nos deixa surpresos em um determinada cena que, na humilde opinião da minha pessoa, é a mais impactante do longa. É belo como os dois atores conseguem mostrar o sofrimento do conflito pessoal, o desespero pela adequação, o sentimento de culpa e o desequilíbrio psicológico que a repressão sexual causa nas pessoas.

Apesar do longa contar com um final previsível, os acontecimentos do último ato são muito interessantes e chocantes pelo realismo e atualidade dessa narrativa, que é o que mais assusta, sobretudo após a recente ascensão política de grupos, tanto a nível nacional quanto internacional, cuja visibilidade política ocorreu a partir da defesa de premissas como a “cura gay”. Vale lembrar que no Brasil, em 2017, décadas após a determinação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a homossexualidade não é uma doença, uma decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou psicólogos a oferecer supostos tratamentos contra a homossexualidade, mesmo que esse tipo de tratamento estivesse proibido desde 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), o que rendeu um enorme quebra-pau entre psicólogos, políticos e a comunidade LGBTQI+.

Por fim, gostaria de mencionar duas obras que vieram à minha cabeça enquanto eu assistia esse filme, cuja influência no longa eu certamente não tenho como afirmar se existe mas que de qualquer forma tocam, cada qual a sua maneira, na temática do “tratamento” de pessoas homossexuais: “O Jogo da Imitação, onde vemos Benedict Cumberbatch dar um show de interpretação na pele do matemático e cientista Alan Turing, que, mesmo após os serviços fundamentais prestados ao governo britânico (e à humanidade) durante a Segunda Guerra Mundial foi processado por sua orientação sexual e submetido ao cruel tratamento da castração química, que acabou levando ao seu suicídio; e a polêmica Sense8, que abordou o tema do relacionamento homossexual e do tabu cultural sofrido por tantas pessoas ao redor do mundo, dividindo opiniões em termos de qualidade narrativa, mas bem recebido pela comunidade gay, atraindo uma legião de fãs desesperados pela renovação da série.

Em suma, recomendo fortemente O Mau Exemplo de Cameron Post como boa obra de representatividade e como material de reflexão sobre a capacidade dos seres humanos de serem intolerantes, excludentes, opressores e violentos com seus semelhantes.   

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