Da diretora Caroline Link, vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Lugar Nenhum na África”, de 2001, chega ao Brasil essa pequena pérola do cinema alemão que conta de forma singela a história da infância de Hape Kerkeling (Julius Weckauf), o comediante mais amado da Alemanha (e completamente desconhecido por essas bandas). O recorte do filme se concentra em dois decisivos anos da infância do comediante, ainda um menino gorducho do interior que crescia na segurança de sua família e de parentes que adorava divertir.

À primeira vista, como qualquer menino gordinho em virtualmente qualquer canto do mundo, ele não era exatamente o mais popular da turma, mas aos poucos desenvolve um talento peculiar de observação da realidade à sua volta, que resulta em imitações debochadas e hilárias de vizinhos e colegas em geral. Essa característica torna não muito difícil sua adaptação quando, por uma questão de trabalho do pai e à contragosto da mãe, sua família se muda para outra cidade na Alemanha.

Sr. Batata

O filme acerta em cheio ao optar não por uma longa e potencialmente tediosa biografia do artista, mas sim em focar a narrativa em somente dois anos da infância dele, exatamente os anos que compreendem a mudança de cidade de sua família e as perdas de suas principais referências familiares, eventos que imprimem uma marca indelével em sua personalidade e que o tornarão, em última instância, o artista aclamado por todo um país. É uma escolha de roteiro acertada e para a qual eu bato palmas. Além disso, o ator-mirim Julius Weckauf é um achado. O moleque é bom demais e segura as pontas com maestria tanto nos momentos cômicos quanto nas cenas dramáticas, interagindo com graça e leveza entre os adultos e capitalizando toda a atenção para si.

Fugindo um pouco do clichê do palhaço triste, ao invés de imprimir uma auto-piedade na construção da personalidade da criança, o filme tenta expor toda a beleza à sua volta, desde a personagem da tia que “canta quando está triste” até a avó materna que embarca em todas as suas loucuras infantis, dando assim um tom de leveza ao longa, sem apelar à pieguice. Como dito em certa passagem do filme, o menino, com toda a sua graça, será o expoente da risada e da dor de todos à sua volta, e isso o moldará. Para sempre.

“O menino tem que estar ao ar livre”

Por fim, como curiosidade e crítica, o nome original do filme em alemão seria, em tradução livre, “O menino tem que estar ao ar livre“. Devo dizer que respeito o trabalho de produtores e distribuidores de cinema no Brasil e me esforço para entender os motivos comerciais que regem certas escolhas, como traduções de títulos. Mas penso também que o trabalho artístico deva ser respeitado. O título original é construção do artista que concebeu sua obra e é parte integrante dela. Nesse sentido, confesso que, como consumidor do produto cinema, não entendo como o título “O menino que fazia rir” possa ter um apelo maior do que o original, fazendo-me crer que é uma escolha arbitrária de alguém que viu o filme e inferiu que esse título era “melhor”, pura e  simplesmente. O que seria conferir a um técnico poder maior que o artista sobre sua própria obra. E essa ideia é absurda, se não perigosa.

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