Eu tenho uma relação de amor e ódio com o cinema francês. No geral, quando sou agraciado pela exibição de algum longa, ele tende a ser algo variando do meia boca, como em “Nada a Esconder“, ao MUITO ruim, sendo “Na Vertical” o pior filme que já vi na vida. Mas aí, quando a esperança de me entreter me abandona, eis que assisto obras como “Amour” e “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” e sou abalado nas fundações do meu ser. Tomando esses últimos como exemplo, o bom cinema francês é edificado na sensibilidade e sutileza do cotidiano, retratando de forma crua e necessária a realidade das nossas relações.

Porém, quando assisto um filme como O Mundo é Seu, volto a ficar levemente desacreditado. E não falo isso tecnicamente, já que a obra é bem editada, razoavelmente bem atuada, possui uma trilha sonora decente e conta com uma direção consistente. O que melhor resume meu problema é uma simples palavra: chato. Não que eu seja um – embora há quem ache isso -, mas o roteiro propõe um filme chato que se arrasta em tela.

Nós vamos em uma aventura com Farès (Karim Leklou), um traficante que quer mudar de vida e abrir uma empresa para distribuir picolé no norte da África. Para conseguir pegar o contrato de distribuição ele necessita de 80 mil euros que a mãe perdeu jogando, sendo obrigado a fazer um último trabalho. Evidente que algo dá errado e ele se vê numa situação muito complicada, necessitando do dinheiro pro contrato e devendo para traficantes perigosos. Piorando sua situação, sua mãe Danny, interpretada por ninguém menos que Isabelle Adjani – indicada duas vezes ao Oscar, em 1976 e 1990 -, é uma daquelas vigaristas impulsivas que causam mais problemas do que solucionam, criando um cenário que vai além da questão financeira, envolvendo inclusive crime hediondo.

Com uma premissa dessas, um filme que muito bem poderia ser agradável, apresenta tantos personagens unidimensionais e caricatos que transforma sua 1h30 de duração em 3h intermináveis. O tom cômico, que eventualmente funciona, faz um desfavor ao não encaixar com o nosso protagonista, Farès. Sua situação tragicômica, que, parando pra analisar friamente, é só trágica, raramente encontra respaldo em cenas engraçadas, tornando o longa cansativo com tentativas de encaixar uma piada aqui e acolá.

Contudo, nem tudo (há) está perdido. A presença de Vincent Cassel, que vem atuando em filmes brasileiros como “O Filme da Minha Vida” e “O Grande Circo Místico“, e que aqui interpreta um daqueles caras paranoicos que só pensam em teorias da conspiração e falam coisa pra caralho sem parar enquanto alternam com alguns momentos de lucidez, foi DISPARADAMENTE responsável pelos melhores momentos da película. Vale também ressaltar algumas resvaladas na temática da imigração, tão importante e atual na França do século XXI, com personagens tanto da África Setentrional quanto da Ocidental – ambas regiões do forte colonização francesa, bastando ver a seleção campeã da última copa – ocupando nichos marginais na sociedade. E, claro, temos a eterna pendenga dos franceses com ingleses, com muitos insultos disparados com raiva ancestral à torto e à direito sempre que alguém com o dentes bem amarelos e trepados aparecia em cena.

No mais, O Mundo é Seu vai matar o seu tempo se isso é o que você procura, mas não espere se borrar de rir e nem ficar deslumbrado com uma história sobre crimes nessa “violenta” França.

Au revoir!

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