Lá no final da década de 1990, eu e minha irmã ficávamos acordados até às 22h esperando começar “Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira“, que passava no saudoso canal Nickelodeon. Além de ser uma época longínqua, na qual as pessoas tinham que esperar pelo horário que seu programa ia ao ar na TV, ela era dominada por séries que nada se comparam com as de hoje em dia, sendo no geral mal produzidas, episódicas e com atores que certamente você nunca veria nos cinemas. Obviamente que, diferente da minha irmã, eu não assistia por achar bruxas legais ou engraçadas, muito menos pelas lições de moral de cada episódio. Com a exceção do gato falante criminoso Salem, eu via única e exclusivamente por ser um adolescente de 15 anos cheio de hormônios que ficava galudo ao ver as tias milfs da Sabrina e, claro, a própria Melissa Joan Hart.

20 anos depois, a NETFLIX resolve ressuscitar a série completamente repaginada e adaptada para a nova geração de adolescentes leite com pera, que podem assisti-la quando e onde quiserem. Será que a nossa plataforma de streaming favorita conseguiu entregar uma temporada com substância?

Toda a obra é focada em Sabrina Spellman (Kiernan Shipka), uma mestiça – metade bruxa e metade mortal – que está prestes a fazer 16 anos. Para celebrar esse evento muito especial, é tradição da Igreja da Noite, que cultua Satanás e da qual todas os bruxos participam, a assinatura do Livro da Besta pela aniversariante, que com esse ato ratifica a troca da sua alma por poderes e uma vida praticamente imortal, dando início aos estudos das artes negras em uma prestigiada academia para bruxos (a Hogwarts da série). Contudo, Sabrina está dividida entre o mundo dos mortais e o das bruxas, o que detona uma crise na família Spellman e na Igreja da Noite quando ela se recusa a assinar seu nome no Livro da Besta.

A partir daí a série segue dois caminhos. Um deles é o fio condutor com Sabrina alternando entre os dois núcleos – o de seus amigos mortais na escola e o da magia com sua família e academia – numa dicotomia eterna que se dá pela luta entre a Igreja da Noite e Satanás contra a sua persona mortal resistindo. O outro caminho adotado é o com arcos pequenos alternando 1 ou 2 episódios, o que causou um enorme problema de ritmo. Temos dois excelentes primeiros episódios introdutórios e já caímos num arquinho formulaico.

De forma até bem surpreendente, a obra não se isenta de temas em voga, abordando a pauta feminista e o abuso contra as mulheres, a questão de identidade de gênero e de opção sexual com personagens que passam longe de ser caricatos e que se encaixam muito bem na narrativa. Porém, o mais interessante talvez tenha sido a crítica as instituições religiosas cristãs. Diversos momentos de confronto e indagações quanto o intuito, função e necessidade de certos rituais da Igreja da Noite e das práticas sociais de seus membros coincidem com muitas das dúvidas e sacramentos que a da Igreja Católica Apostólica Romana pratica, por exemplo.

A relação entre os Spellmans também foi prazerosa de acompanhar. Infelizmente, o gato Salem, que na série dos anos 90 era um parente de Sabrina preso na forma de gato como punição por um crime e que dava sempre os piores conselhos, passa a ser representado por 2 personagens. Ainda existe um gato chamado Salem, que agora é um Familar, uma espécie de guia espiritual, e temos o primo Ambrose (Chance Perdomo), que cumpre prisão domiciliar por um crime e que herdou a função de providenciar os piores conselhos. Mesmo dando uma nova dinâmica, sinto falta de ver um gato falante, que agora sem restrições que a TV impõe, poderia falar as coisas mais absurdas possíveis.

Tia Hilda (Lucy Davis) e tia Zelda (Miranda Otto) ainda mantém a dinâmica policial mau, policial bom – o que é divertidíssimo – e de quebra são a força motriz da temporada, impulsionando Sabrina em caminhos diferentes conforme a alternância de suas influências. Sem querer spoilar muito, vale mencionar o pai de Sabrina, que foi um líder bruxo importante e diretor da academia que sua filha frequenta, dando status de Harry Potter para a menina e que, mesmo pouco aparecendo, carrega grande peso na história.

Além de ter essa história gostosa de acompanhar e que cai muito bem nesse final de semana de horrores de eleição e Halloween, temos uma ambientação muito competente, contando com uma fotografia sempre tenebrosa, tanto de dia quanto a noite, e visualmente pesada. Temos sangue aos baldes, corpos para todos os lados, demônios, cultos satânicos, canibalismo, infanticídio e abusos psicológicos que me fizeram conferir a classificação indicativa mais de uma vez.

O Mundo Sombria de Sabrina foi muito além do esperado, entregando uma série descontraída, pesada e que agrada fãs antigos e cativa os novos. Caso você tenha 16 aninhos – que aliás é quase uma meta classificação – não deixe passar essa oportunidade e maratone seus 10 episódios! Também não esqueça de assinar seu nome no livro do Mochila de Criança, vulgo Sinteco Gelado.

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