O Mundo Sombrio de Sabrina retorna à NETFLIX para alegria de todos os adoradores de Satanás. Contando com uma Parte 2 com apenas 9 episódios, temos o fim de um ciclo iniciado há pouco mais de 5 meses após seu lançamento. Para te deixar avisado, não dando spoilers brutais, recomendo fortemente que você assista a Parte 1 e leia a crítica. Mesmo não contribuindo em muito para a narrativa da obra, o especial de Natal também é recomendável, pois apresenta um contato entre Sabrina (Kiernan Shipka) e um ente querido apenas subentendido posteriormente.

Dito isso, estamos diante de uma estratégia da NETFLIX de não assustar e saturar seus consumidores com temporadas muito grandes, elemento de críticas duras anteriormente por séries com barrigas enormes e que giram aí na casa dos 12, 13 episódios. Em Sabrina, temos um trabalho cortado quase ao meio, recebendo um tratamento que muitas séries com mais de 15 episódios e geralmente lançadas semanalmente adotam: colocar um hiato relativamente curto entre a 1a e a 2a perna. Recebemos 11 episódios em sua Parte 1 e 9 na Parte 2, totalizando 20 de em média 1h cada, separados por apenas 5 meses, algo que, se não me falha a memória, a colocaria como uma das maiores temporadas da plataforma. Confesso que gostaria de ter visto os 20 de uma vez e que esse hiato comercial me desagrada, mas sem sombra de dúvida dá um fôlego ao telespectador que poderia ter fugido de algo tão colossal.

E não é para menos esse tamanho gigantesco, temos conteúdo saindo pelo ladrão nessa última entrada após a 1a ter estabelecido os personagens – muito bem, diga-se de passagem – e ter posicionado Sabrina final e permanentemente no núcleo bruxo. Dessa vez não temos mais aquela dualidade e conflito de nossa protagonista entre o mundo dos mortais e dos bruxos, sendo esse universo agora o catalisador de tudo o que acontece na obra, focando quase que exclusivamente no mundo de pendengas satânicas e tradições pagãs.

Para bem e para mal, a série continua com a mesma pauta e proposta, mas com menos de crítica social. A pauta LGBTQI+, especialmente com a discussão de gênero, e o feminismo continuam sendo as principais temáticas indo de encontro, claro, ao tradicionalismo da Igreja de Satanás. Essa crítica sendo direcionada para uma instituição religiosa, sem sombra de dúvida, proporciona os momentos mais interessantes por justamente mostrar as incoerências dentro do satanismo – teoricamente oposto ao cristianismo – que encontramos dentro da Igreja Católica (e praticamente qualquer outra religião cristã organizada).

Ainda dentro do desenvolvimento do lore, temos uma intriga a la Harry Potter, com mestiços e não-bruxos sofrendo preconceito pela maioria dos bruxos ditos puros, detonando uma luta pelo poder entre 2 facções. Uma busca uma legislação excludente e opressora contra os mestiços, reforçando o poder do patriarcado dentro da Igreja do Senhor das Trevas e tentando voltar aos primórdios de sua fundação, considerado por eles como a época gloriosa. Enquanto isso a outra facção abraça o matriarcado e adota propostas mais progressistas de convivência pacífica e acolhedora dos mestiços e não-bruxos. Isso sem mencionar a Ordem dos Inocentes, uma espécia de inquisição que caga para qual das facções você se encontra. Se você é bruxo, metade ou 100%, merece virar churrasquinho de espeto. Mesmo com esse tipo de radicalismo sendo familiar, ele ganha contornos próprios e resgata elementos do passado dos principais personagens, fazendo da Parte 1 ainda mais fundamental para entender o que está sendo recontextualizado. E durante toda essa pendenga, Lilith e Satanás continuam manipulando por fora o destino de Sabrina sem tomar partido de ninguém. Interessante como a igreja que realiza atos em nome do seu Deus não representa a sua vontade. Familiar?

Infelizmente, a série joga esse embate duplo lá para a metade final da Parte 2, deixando muitos elementos corridos e pouco desenvolvidos. Esse é um dos principais problemas da obra: sua falta de ritmo. Temos um começo muito lento, aprofundando o lore de forma episódica, ora com dualidade cristã versus a satânica, como o episódio do dia dos namorados e da lupercália – onde rola orgias surubentas -, ora apresentando informações/personagens novos, inchando o elenco e deixando-o sem muito desenvolvimento. Isso sem contar os episódios jogados no lixo, como um que parecia um “What If?! (E se?)” com os personagens explorando um futuro alternativo para eles numa mesa de tarô.

Se você chegou até aqui, muito provavelmente é porque assistiu e gostou a Parte 1 do O Mundo Sombrio de Sabrina. Essa 2a entrada apenas é uma conclusão sem tirar nem pôr nada substancialmente novo, apenas mais sombrio, menos teen e tentando se levar um pouco mais a sério. Não é uma obra-prima, mas também não é uma série que deva (ou vá) cair no esquecimento. É uma das melhores produções da plataforma e merece ser assistida.

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