Certa vez, quando era moleque, perguntara ao meu pai sua opinião acerca de um frase. O velho respondera “depende”. Enquanto eu, hesitante sobre sua consideração, perguntava-me como poderia depender, ele completara “se você me disser que essa frase é de Newton, vou provavelmente concordar; se me disser que é de Paulo Coelho, vou te dizer que ele está falando besteira”. Naquele momento, concluí: “que ‘otarice’ do meu velho”. Mas, com o passar do tempo, vi que ele tinha alguma razão. Ninguém é estúpido o suficiente de dar a cara à tapa e dizer que grandes e reconhecidos artistas não fazem obras boas. Meu irmão me contou, outra vez, de uma graduanda de seu curso de Literatura Inglesa que admitia não gostar de Shakespeare. Tal fala é suficiente para gerar a antipatia plena a um ser desses. Mas será que devemos ser absolutos assim no julgamento dessas pessoas?

A verdade é que sempre achei muito chato um dos filmes mais falados da História do Cinema. Título este que figura entre os melhores na lista da maior parte dos críticos e historiadores da Sétima Arte. Trata-se de “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Mas sempre guardei para mim esta opinião, pelo medo de sofrer investidas de fãs xiitas. Eis que, em um dia, me deparo com a frase do fabuloso cineasta Ingmar Bergman, acerca do diretor norte-americano: “Para mim, Welles é só uma piada. É vazio. Não é interessante”. Não chego a este extremo. Mas, de fato, nunca achei a obra citada lá muito interessante.

Hannaford e seu pupilo.

Orson Welles, apesar de ter trazido muito ao Cinema, com grandes inovações, composições de cena, fotografia sempre impecável e o prazer pela metalinguagem (é muito claro o quanto ele se utiliza de vários gêneros narrativos a um só tempo em “Cidadão Kane”), esteve em um “exílio” produtivo na indústria americana durante anos. Quando voltara à Hollywood, após uma temporada na Europa, decidira fazer “O Outro Lado do Vento”, tentando unir esforços e recursos para a realização. No entanto, muitos problemas – como de costume já há algum tempo – estiveram ao longo do processo criativo deste título, fazendo a equipe atravessar anos e anos e não conseguindo concluir a obra. Era a década de 1980 quando Welles deixava o mundo, ficando órfão esse seu projeto. Neste ano de 2018, porém, concluíram seu feito tentando seguir, o máximo possível, sua visão. Eis que, décadas depois, é lançado, portanto, O Outro Lado do Vento.

O filme tem a assinatura plena de Orson Welles, trazendo as maravilhosas composições de cena, fotografia impecável e o mesmo prazer pela metalinguagem, que aqui é gritante a cada quadro. A própria sinopse já denuncia a própria concepção do filme: um diretor de Hollywood volta de seu semi-exílio com planos para concluir um filme inovativo. Trata-se de Hannaford (pelo sempre brilhante John Houston), um velho cineasta com uma visão artística complexa e muito combatida por alguns produtores, já que seu processo criativo é livre e, de alguma forma, caótico. A obra que está a tentar concluir se chama “O Outro Lado do Vento” e a história foca na avalanche de problemas que Hannaford tem que enfrentar para conseguir completar o título. Um ator que sai no meio das filmagens, produtores que tentam limitar seus esforços, recursos que se apresentam escassos. Tudo isso em uma narrativa que mistura a obra filmada por Hannaford (e que, no duro, obviamente é também uma obra filmada por Welles) e sua história de sacrífico para fazê-la (que é o filme que Welles estava a fazer).

O filme dentro do filme.

A metalinguagem é tão marcante que por vezes, por algumas vezes, os personagens lançam falas que estavam na mente do espectador, praticamente naquele momento. A montagem de O Outro Lado do Vento é corte-colagem que passa a loucura do processo criativo de Hannaford, ora nos levando ao filme do personagem, ora focando na narrativa do diretor. Os vai-e-vem são tantos que você sequer se preocupa, após um tempo, em saber a que pé anda a história, e simplesmente se deixa levar por toda aquela confusão. “Colocaram o rolo errado”, diz um personagem durante a exibição teste do filme ainda não pronto, ao que rebate o projecionista “e isso faz diferença?”. É exatamente assim o próprio filme de Welles: em determinado momento, temos a certeza de que inverter os cortes não traria lá grandes diferenças para a narrativa que estamos a contemplar. “Essa história está me entediando”, profere em outro momento a personagem – o que ilustra, muito provavelmente, a impressão de um sem-número de espectadores – posso apostar. A metalinguagem é tal que os personagens falam as falas dos espectadores. Ou os espectadores estariam a falar as falas dos personagens?

A lente que filma a lente, que faz uma expressão da realidade.

Muito menos por uma história profunda e cheia de significados e muito mais por um exercício de narrativa e sobretudo de estética – com plano estonteantes, despropositados muitas vezes, mas estonteantes – O Outro Lado do Vento talvez resuma, de fato, o que Orson Welles é para mim e – preciso usá-lo antes que um leitor xiita faça pedaços de mim – para Ingmar Bergman: vazio – algumas metáforas, inclusive, sofrem um didatismo mais que desnecessário – e pouco interessante. Apesar de qualquer outro ponto negativo que o filme porventura possa ter, para além de tudo a experiência cinematográfica diferenciada e a beleza estética, juntamente com uma subversão ao Cinema clássico, fazem da obra algo digno de ser apreciado (no sentido mais estrito da palavra). Mais ainda pela questão pessoal intrínseca a esta (ou qualquer) produção: a tentativa de exorcismo e desabafo de um importante artista.

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