Em outros tempos, quando não se vendiam camisetas espertinhas com citações que apenas os intronizados são capazes de entender, os contos de fadas cumpriam um papel importante dentro da sociedade e, em especial, na educação das crianças. Alguns, como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria, serviam de alerta para que crianças não se aventurassem sozinhas pela floresta, sob o risco de serem “comidas” por bruxas ou lobos maus. Outros, como os contos do Círculo Arthuriano, ensinavam os valores da vida medieval, de servidão, honra e amor cortês. Quase todo conto de fada trazia uma lição de moral que buscava ensinar algo que seria útil ou importante à formação das crianças. Em tempos recentes, os contadores de história passaram a focar de forma mais proeminente nos aspectos da aventura, da luta, da conquista, ainda que sob a bandeira de idéias bastante válidas como liberdade e justiça. A vitória passou a simbolizar a virtude maior do herói. E em um mundo competitivo como foi o século XX, isso faz sentido. Mas estamos já há quase 20 anos dentro de um novo século. Um século que decidiu erguer a bandeira da cooperação, da inclusão, do acolhimento, da compreensão. Vencer não importa mais tanto assim se para alcançara vitória precisamos pisar nos que não subirão ao pódio.

Lançada nessa sexta-feira, na Netflix, a segunda temporada da animação O Príncipe Dragão traz novamente todos os elementos muito bem sucedidos da primeira temporada (e alguns dos mesmos engasgos técnicos) já descritos pelo nosso querido Gustavo David em crítica publicada aqui no Metafictions, mas inclui algo que agradou muito a este que vos escreve: o propósito original dos contos de fada, o de mostrar às crianças a diferença entre certo e errado e quais as conseqüências de escolher um ou outro.

Aqui acompanhamos novamente as aventuras dos príncipes Callum e Ezran e da elfa Rayla ao tentarem devolver à Rainha dos Dragões o tal Príncipe Dragão, cujo ovo foi roubado durante a guerra secular que separa os humanos dos seres mágicos. Se na primeira temporada vimos os humanos Callum e Erzan confrontando seus próprios preconceitos sobre os elfos ao serem forçados a se unirem a Rayla para dar fim à guerra que assola ambos os reinos, nessa segunda os valores explorados são mais pessoais, mais focados na motivação de cada um dos personagens, e novamente o roteiro se mostra brilhante.

Logo nos primeiros episódios temos a chegada de Claudia e Soren, amigos de infância dos príncipes, que vêm em uma missão escusa dada por seu pai e forçam os heróis a reavaliarem os recentes laços criados com Rayla. Os próprios Soren e Claudia são confrontados com a escolha de obedecerem as ordens do pai, mesmo estas indo contra sua consciência, ou honrarem a antiga amizade com os príncipes. Os valores de confiança, respeito, amizade, lealdade são a todo tempo explorados e de uma maneira bastante humana, mostrando que a escolha certa nem sempre se mostra tão clara quanto gostaríamos.

Callum, em especial, tem sua consciência testada durante toda a temporada, e passa por todas as provações clássicas do herói mitológico: ele precisa compreender a mortalidade, os meandros do amor, as consequências de tomar atalhos fáceis para a solução de problemas complicados e a coragem de se sacrificar quando o bem maior o exige. Ele terá que passar por uma jornada interna, na qual precisará recriar seus próprios conceitos equivocados sobre o que é a magia para se tornar um mago.

Observamos o surgimento de novos personagens, como o misterioso elfo Aaravos, que provavelmente se tornará uma peça chave para a terceira temporada, ou o capitão Villads. Este último traz uma deliciosa sutileza que torna a mensagem da série ainda mais agradável – se não pudermos ver alguém, todos os nossos preconceitos se vão e o que nos resta é julgar tal pessoa pela maneira como ela nos trata. E são nessas mensagens sutis que a segunda temporada se destaca. Com o enredo principal estabelecido e a história se movendo sem que se precise explicar muita coisa, sobra espaço para que os roteiristas incluam todo o tipo de mensagem relevante para o mundo moderno, coisa que já vinha sendo feita amplamente na primeira temporada, com o rei negro que cria um filho adotivo branco, ou a igual importância do herói (Callum) e da heroína (Rayla).

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Na segunda temporada temos o conto de duas rainhas que são apresentadas como “parents” – no inglês a palavra neutra para “pais” – e não “mothers” (mães) de uma princesa, mostrando que esse mundo mágico não faz qualquer distinção entre “essa” ou “aquela” família nem nas palavras que as descrevem. Tal princesa, agora uma rainha, uma menina ainda, tem sua autoridade desafiada por Lord Viren, e suas resposta sábias e precisas trazem a ideia de que às vezes (muitas vezes) a visão honesta de uma criança deve ser ouvida com mais atenção que as opiniões maliciosas e covardes dos adultos.

A figura feminina também ganha posição ainda mais proeminente quando conhecemos a rainha Sarai, esposa do rei Harrow, uma poderosa guerreira, muitas vezes mais sábia (e habilidosa) que o próprio rei e a verdadeira heroína lendária de toda a trama. Sua irmã, a general Amaya, líder das tropas de Katholis, é surda e toda a sua tropa se comunica naturalmente com ela com linguagem de sinais. Não apenas há a preocupação em incluir um personagem com deficiência (na verdade dois… ou… três?) participando plenamente da sociedade e em posição de liderança, como há vários comentários e piadas feitos em linguagens de sinais entre os personagens e que não recebem tradução ou legendagem. Não sei se acidentalmente ou de propósito, mas gosto de pensar que se trata da segunda opção, o que levaria um fã mais ardoroso a desejar descobrir o que tais personagens estão dizendo e, quem sabe, aprender a linguagem de sinais, por que não?

E é óbvio que o contraste entre a magia élfica, que entra em sintonia com a natureza, e a magia dos humanos, que precisa sacrificar animais para roubar suas energias vitais, serve como pano de fundo para se discutir assuntos como os direitos animais, a preservação das espécies em extinção, a ecologia de um modo geral. Com tanto cuidado com a mensagem que passa aos espectadores, tanto esmero em atualizar tais mensagens para os nossos tempos e para uma linguagem acessível às crianças que assistirão tal história, ouso dizer que O Príncipe Dragão é uma das melhores adições ao mundo das animações em tempos recentes.

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