Há algum meses, o trailer de O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos martela as cabeças dos frequentadores de cinema. Embora eu, até o momento que sentei para assistir o longa, soubesse apenas das suas raízes, nunca tive qualquer contato com a obra. Jamais li “O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos” de Ernest Hoffmann e nem assisti o ballet “O Quebra-Nozes”, adaptado por Alexandre Dumas da obra original. A única característica que conhecia era sua relação com o natal. Contudo, esse filme é tão natalino quanto “Rocky IV” (aproveite e confira nosso Garimpo Netflix: Natal e nosso irônico Os 12 Melhores Filmes de Natal). Com essa data festiva, o longa compartilha apenas o dia e uma referência à árvore de natal, o que explicaria o porquê do seu lançamento no início de novembro, perdendo uma janela bem oportuna para atrair um público sazonal.

Talvez isso tenha sido uma escolha do marketing tendo em vista o produto que tinha. Mesmo contando com uma atmosfera envolvente, O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos falha miseravelmente em encantar e entreter. Estamos diante de um filme infantil, o que não exime de culpa o roteiro fraco, que apresenta personagens rasos e unidimensionais e uma direção sem inspiração. A começar pela nossa protagonista Clara (Mackenzie Foy), que, motivada a encontrar uma chave que abre uma herança da sua recém falecida mãe, adentra um mundo de fantasia recheado de personagens fantásticos. Porém, não há um esforço em edificar esse luto ou em mostrar os motivos pelos quais as memórias de sua mãe retêm tanto carinho em sua vida. Ela simplesmente precisa da chave para abrir o presente muito mais pela curiosidade do que há dentro do que pelo significado sentimental.

Nesse mundo, 4 reinos – que estão muito mais para 4 bairros dada as dimensões mostradas – estão com uma questão separatista. Um deles, supostamente, entrou em conflito com os demais após o sumiço da rainha (mãe de Clara), que era muito mais do que uma representante oficial. Ela era a responsável pela criação dos reinos e de todos os seres que os habitam e seu desaparecimento deixou todos abalados e desorientados. Embora uma das únicas partes realmente boas tenha ajudado na explicação do enredo, com uma apresentação do “Quebra-Nozes” por bailarinos, ficamos a ver navios em relação aos desejos pessoais e motivações além do factual.

Ficamos cientes de como os seres que habitam o mundo foram criados, que está acontecendo uma guerra contra um dos reinos e que tanto Clara quanto sua mãe são especiais. O que escapa é o subjetivo. Por que eles foram criados? Por que elas são especiais? Como aconteceu essa ruptura? Quais são os interesses de ambos os lados no conflito? Todas essas perguntas são respondidas com tanta profundida quanto uma criança de 4 anos poderia responder e é nesse ponto que o filme cai por terra.

Com a exceção de Mother Ginger (Helen Mirren) e os ratinhos que são o alívio cômico, os personagens são fraquíssimos e rasos. Não conseguimos criar empatia e torcer para ninguém, muito pelas atuações que beiram o amadorismo. Talvez, me pergunto, tomando como exemplo o soldado Quebra-Nozes Phillip (Jayden Fowora-Knight) – que é tão sem expressão quanto um quebra-nozes de verdade – se não foi a melhor metalinguagem que já presenciei. Ele e muitos outros são tão decorativos quanto os enfeites de natal que tiramos de caixas empoeiradas uma vez por ano e pouco contribuem para o desenvolvimento de uma história que serviu de árvore de natal cinematográfica, apenas mostrando belos cenários e efeitos sem qualquer conteúdo.

O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos era um filme com potencial. Tinha o apoio de obras conhecidas, contava com um elenco com alguns nomes de peso e tinha uma temática que poderia render uma exploração mais profunda sobre o luto, o amor ao próximo e a família. Contudo, ele é apenas mais um filme de natal que não é natalino.

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