Há muito pouco tempo, um de nossos escritores resenhou aqui no site a mais nova obra protagonizada por Timothée Chalamet e Steve Carell, “Querido Menino“. Nas linhas que denunciavam a sinopse, ele escrevera se tratar de um filme sobre uma família tentando se reconstruir em meio aos escombros físicos, emocionais e psicológicos do filho, prodígio com todo um talento pela frente, que caíra na desgraça do vício em drogas. O novo filme de Peter Hedges, O Retorno de Ben, aborda basicamente o mesmo assunto, excluindo-se, porém, a parte prodigiosa do personagem. Dessa vez, temos o garoto ordinário, de uma família comum, a tentar se refazer e consertar seus erros do passado, lutando constantemente contra o fantasma do vício que o cerca como leão feroz.

Ben (em boa atuação de Lucas Hedges) está inesperadamente de volta à casa, onde vivem seus três irmãos, a mãe Holly (em bom trabalho de Julia Roberts) e o padrasto Neal (em boa, mas curta performance de Courtney B. Vance). De cara, a surpresa se apresenta negativa a quase todos, visto que Ben deveria se manter no programa de reabilitação por mais tempo, já que segue “limpo” há mais de 70 dias. Mas para os olhos vidrados e cheio de amor de sua mãe, a aparição dele traz única e exclusivamente boas consequências aos presentes. A família poderá passar o Natal da forma como se espera que se passe, com união e amor. Acontece que o conceito de “ex-viciado” é muito frágil; não à toa, os que parecem ter superado o problema sempre o fazem declarando o tempo em que estão seguidamente sem uso de qualquer substância entorpecente. Assim sendo, Holly será como uma sentinela implacável a cada passo do filho, certificando-se de que ele não falhará no processo pessoal.

A união.

Mas o que se construiu, positiva ou negativamente, não se dissocia tão facilmente de seu autor. Ben terá que conviver, a cada dia de volta ao lar, com personalidades das mais variadas, fazendo-o revisitar lugares interiores e exteriores, pessoais e geográficos, que trazem à tona todo o seu pior lado. A relação que tece com Holly é o que de mais evidente o filme foca, não transformando essa história em um conto de um drogado que se afunda mais e mais; nem de um ex-viciado em busca de recuperação; nem tão somente de alguém que quer encontrar a redenção. O filme é, sobretudo, sobre a relação de amor incondicional de uma mãe para com seu filho, na figura desta Holly disposta a enfrentar um submundo escondido naquela comunidade e se certificar de que o filho amado está, de fato, livre das amarras impostas por relações que não se apagam em um piscar de olhos.

A narrativa que se desenvolve peca por não evidenciar o problema de seus protagonistas. Certamente a relação dos dois é muito clara e muito baseada no amor incondicional da mãe que não quer falhar com o filho e do filho que quer se ajustar pela mãe e demais familiares. Mas os dramas pessoais são pouco desenvolvidos em uma história que, por natureza, é sensível e tocante. Muito da carga dramática que as sequências sugerem é inexplorada, ficando a sensação de que tópicos foram lançados sobre a vida do rapaz, mas não dissecados a ponto de criarmos uma conexão tão mais densa com suas buscas e medos. Por outro lado, a tensão e agonia de Holly, por serem refletidas a partir desses dissabores do filho, também se apresentam menos marcantes. Faltou visceralidade a um enredo que é, em essência, puro em sentimento, pois aborda o instintivo ato de proteção de uma ninhada, quando se ignora a razão e se age por pura emoção.

E a cumplicidade incondicional.

Se o filme consegue criar a atmosfera ideal para conversar com temas tão poderosos quanto este ao situar a história em um contexto natalino que, por si só, exala amor ao próximo e boas expectativas, contracenando com o submundo das drogas e a instabilidade de um viciado pronto a cair em armadilhas auto-impostas; ele falha no aprofundamento dos dramas que tornam esta trama maior do que uma simples expressão de causa e efeito conhecida por todo e qualquer ser humano. Os elementos estavam ali, a costura estava bem feita. Faltou mergulhar fundo nesse conto denso e avassalador que sempre é.

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