Narrado como uma lenda da mitologia grega que foi esquecida ao longo do tempo, o anime O Sangue de Zeus, lançamento da semana na Netflix, conta em oito episódios enxutos a história de Heron, um rapaz vivendo nos arredores de uma polis (cidade) na Grécia clássica. Um bastardo em um mundo tosco que deliberadamente maltrata pessoas que tiveram má fortuna ao nascer, Heron descobre que sua origem é mais especial do que sua mãe o fizera acreditar. Aqui Zeus, o mulherengo mais inveterado da mitologia grega, resolve se engraçar com mais uma jovem mortal pelo simples fato de que ele é o deus supremo e pode fazer o que lhe der na telha, e produz mais um herói que carrega seu sangue (hã, hã, sacou o nome da série?).

Blood of Zeus: Netflix divluga trailer e data de estreia do novo anime | Minha Série

A animação descreve o panteão grego de uma maneira bastante próxima do que a mitologia nos conta. Os deuses são todos uns bostas alimentados pelos sentimentos mais asquerosos presentes no ser humano – ciúmes, vingança, luxúria, ambição, ganância, orgulho – só que manifestados da maneira mais extrema possível, já que são deuses e tudo o que fazem toma dimensões celestiais. Os mortais existem para alimentar suas disputas e joguetes mesquinhos, ou para serem usados para seu próprio prazer. Ao menos os gregos antigos não tinham ilusões quanto a isso e viviam de acordo, protegendo-se contra os caprichos dos deuses, lutando contra eles quando podiam e, quando não podiam, aceitando seu destino como sendo a vontade divina. Se fomos criados pelos deuses e somos falhos, como podemos fantasiar que eles não o seriam também?

Toda a saga de Heron gira em torno dessa premissa e ele terá que se provar merecedor de seu sangue divino lutando contra um exercito de demônios que atacam as cidades em busca de pessoas que se convertam para sua seita, tornando-se, elas também, demônios. Se isso não bastasse, Hera, esposa de Zeus, enciumada por mais uma traição de seu marido cafajeste, resolve transformar a vida do rapaz num inferno para se vingar do deus dos deuses. Parece ser, em nossos tempos de enredos mirabolantes e rocambolescos, uma motivação frívola, mas isso não é nenhuma novidade no imaginário grego, já que boa parte das sagas dos seus heróis são movidas por motivos banais como esses, e a história funciona. Toda a trama é muito bem amarrada com um tom bastante distinto dos animes tradicionais.

Não há aqueles chavões de desenho japonês, não há alívio cômico idiota (há uma meia-cena apenas que parece ter sido colocada só pra alguém marcar no checklist), não há gotão gigante de suor do lado da cabeça do personagem quando ele fica nervoso ou encabulado, não há bichinhos fofinhos nem conjurações que duram dias. A animação só é um “anime” porque a Netflix resolveu chamar assim. A estética tenta reproduzir algo mais helênico, com rostos finos de nariz pontudo, formas que lembram estátuas, cores que espelham as pinturas presentes nos vasos da antiguidade. O traço escolhido para os personagens é belíssimo, de uma forma rara de se ver em qualquer tipo de animação recente. Apenas os demônios ostentam uma aparência mais asiática, com um certo excesso de pontas, espinhos, chifres e sangue que brilha no escuro. A estética geral, os cenários, a trila sonora, tudo vem somar em um resultado plástico bastante mais belo que muitas animações seriadas, e contribuem bastante para nos transportarmos pra esse mundo antigo que raramente aparece representado dessa forma. Como bônus pros nerds que jogam D&D, Matthew “Critical Role” Mercer faz a voz de Hermes (os entendidos entenderão).

É a própria animação, no entanto, a única bola fora da série. A movimentação é engessada e lembra desenhos animados dos anos 60, tipo Johnny Quest, com figuras estáticas e a câmera se movendo ao redor delas. Pra uma série com tantas cenas de ação, achei um vacilo e me incomodou um pouco no início, mas, depois que me acostumei com isso e mergulhei na história, até que me diverti bastante. Confesso que foi agradável ver uma animação que não fala de ninjas ou robôs gigantes (apesar de esses últimos quase estarem presentes) e acompanhar uma narrativa que ao menos tenta fugir do óbvio.

Sugestões para você: