A ideia de representatividade, pauta cada vez recorrente em debates contemporâneos de gênero, raça e sexualidade, julga importante dar espaço para um indivíduo de algum grupo marginalizado socialmente a fim de combater um certo estereótipo desse mesmo grupo. Ou seja, não é sobre a pura existência desse indivíduo em certo contexto. Por exemplo, quando se fala de representatividade negra, não se fala apenas da importância de inserir negros, mas fala-se também de evitar clichês que, na prática, reafirmam preconceitos construídos a partir de uma cor de pele.

No cinema, tal ferramenta tem se tornado cada vez mais relevante para roteiros que se comprometam a incorporar certos discursos – desde que exista uma construção de personagem por trás de uma mera presença feminina. Um roteiro que queira englobar o empoderamento feminino deve se atentar à forma com representa as mulheres para não cair no vexame cinematográfico de um patético sistema de cotas arbitrário “só pra não dizer que não falei das flores”. Oito Mulheres e um Segredo parece querer surfar na onda da representatividade feminina. Resta saber se triunfou, valendo-se da multiplicidade mulheril, ou caiu no previsível e pintou mulheres que já vimos em filmes nada empoderadores. Ou também se foi só uma bosta.

Debbie Ocean e suas parceiras Lou, Nine Ball, Tammy, Amita, Rose e Constance roubando todas.

Debbie Ocean (Sandra Bullock) é solta da prisão após cinco anos e, como boa criminosa que é – afinal, “é de família”- já tem um novo plano a ser posto em prática: roubar um colar de 150 milhões de dólares durante uma gala dessas de rico famoso. Para isso, ela convoca migas com jeito pra coisa e as mulheres se juntam que nem os Power Rangers na hora do combate e viram o megazord-criminal. Aos poucos eu vou falando delas por que, honestamente, estou com preguiça de escrever todos os nomes em sequência.

O filme conta com piadas que, no geral, dão certo, com destaque para Amita (Mindy Kaling), a joalheira, e para Nine Ball (Rihanna), a ultra hacker (ultra) maconheira da trupe. Como já esperado, Cate Blanchett (na pele de Lou) está ótima sem fazer esforço algum e traz harmonia à estreita amizade com Debbie, o que só reafirma a teoria da versatilidade fantástica e inabalável da atriz. Anne Hathaway é digna de mérito por sua personagem Daphne, uma celebridade insuportavelmente irritante – e esse adjetivo toma forma de elogio já que é imprescindível que ela assim seja para dar certo enquanto recurso humorístico. Por fim, a Constance (Awkwafina) é… meio tipo pombo. Nada demais.

Gente como a gente: suspeitas são vistas pelos metrôs de Nova Iorque

Agora vamos o meu incômodo. O filme poderia, sem compromisso algum, tratar apenas de um roubo de grande porte armado e executado por mulheres, bicho. Essa história existe nas franquias anteriores e que mal tem um diretor querer uma versão com mulheres? Tá certo, parça. No entanto, de maneira oportunista, o filme é lançado após a ascensão do movimento #MeToo na indústria de Hollywood, com toda a proposta de prática anti-sexista e etc. Anuncia, cá e lá durante seu andamento narrativo, tratar-se de uma história sobre mulheres autênticas, no qual não há limitação pelo fato de serem mulheres, ora bolas. Elas podem ser e são fodonas, ué. Mas aí começam os deslizes cujo esforço para me saltarem os olhos foi mínimo – basicamente apelando ao estereótipo do que é ser feminino: jóias, frescurite, bláblá -, tendo seu ápice em uma das justificativas que Debbie dá sobre o porquê do plano.

Anne Hathaway recentemente fez uma declaração sobre o filme, advertindo que o longa não deveria ser lido como uma produção política – ou “de gênero”, no sentido de feminista – mas, sim, como uma comédia que tem mulheres como protagonistas. Por isso, nesse aspecto, o filme pode ser descrito como um entretenimento razoavelmente bem consolidado, com um ato final de escopo escapista mas que passa de surpreendente facilmente. No entanto, é impossível tanto para mulheres quanto para homens deixar de notar certos desleixos, ainda que a proposta em seu cerne não tenha nenhuma bandeira revolucionária. Todos conhecemos aquela pessoa – ou mesmo somos, às vezes – que termina o namoro e faz questão de postar foto, vídeo e o que seja para “dar a volta por cima”, não é mesmo? Entre as mulheres essa atitude é ainda mais naturalizada, apesar de eu crer que, para ambos os sexos, é igualmente ridícula. Por questão de coerência com a opinião descrita, torci o nariz e ele tá aqui ainda mais torto por conta do filme.

Sambando na cara das inimigas – ou inimigos…

Conclusão: feminista, não. Comédia marromenos, sim. E se não gostar do filme não vem culpar as feministas – “tá vendo, é isso que dá mulher em filme” – já suficientemente perseguidas pela merda alheia não. Agradecida.

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