Os saudosos de lançamentos de longas metragens animados japoneses alegrem-se, a Netflix nos presenteia nesse final de semana com a sua mais nova produção original, Olhos de Gato. Vamos deixar claro logo de cara aqui que, se você, assim como eu, prefere cachorros ou tem aversão à gatos (esse não sendo meu caso), e acha que tal predileção/fobia comprometerá a sua experiência, já adianto que não. Esse não é um anime sobre a vida de gatos ou amor por gatos propriamente dito. Essa obra, embora se apoie na adoração cultural que o japonês tem por felinos, é sobre algo mais profundo e íntimo.

Gostaria de te deixar com uma pergunta enquanto você lê o resto da crítica: o quanto de concessão você já fez por alguém para se sentir amado? Acredito que esse questionamento ligou uma chave em mim para melhor entender e aceitar a retórica do filme. Pois bem, a premissa aqui é muito simples. Miyo Sasaki é uma típica guria na adolescência apaixonada por um menino, Kento Hinode, que não retribui essa paixão. Eis que num desses ir e vir da vida, Miyo cruza com um ser sobrenatural que lhe oferece uma máscara que permite que ela vire uma gata, possibilitando que ela possa stalkear seu amado. E como o destino é algo cruel, Kento acolhe e passa a amar (de forma não zoofílica) essa gatinha que o visita eventualmente. Começa aqui o dilema de Miyo: ser algo completamente diferente para ser amada por Kento ou ser ela mesma e viver com a rejeição?

Olhos de Gato explora a nossa necessidade de ser amado e o quanto estamos dispostos a nos despir para conseguir ser alguém importante na vida de quem amamos. Embora nossa protagonista seja uma adolescente, a empatia que senti por ela por se sujeitar a situações, diria eu, degradantes para ganhar migalhas de atenção de quem ela gosta foi um forte fator – talvez o principal – para ver até onde essa história iria. E, nos altos dos meus 37 anos e sendo divorciado de um casamento de 10 anos, ver de fora o quanto de coisas boas você abre mão em você para agradar pessoas com características ruins me comoveu. Fazia tempo eu não via uma personagem feminina tão carismática e sincera – da qual eu teria muito orgulho de ser pai – abandonar esses traços para conseguir se encaixar na vida de Kento, um verdadeiro pau no cu sem graça do caralho. Confesso que a alegoria que o anime escolhe para falar que você se violentar de tal forma pode ser irreversível me tocou, mostrando que se você deixa de ser quem é para agradar terceiros, com o tempo, você esquece de como você era e tem menos a oferecer para outra pessoa. E vamos concordar em algo aqui? Que fantástica é a gata da madrasta de Miyo. Foi a única personagem que me levou às lágrimas.

Tecnicamente não há nada que se destaque aqui, embora não seja uma animação que desagrade. Ela não é autoral ou original, mas cumpre a sua função. O mesmo valendo para a trilha sonora e dublagem. Contudo, há uma evidente barriga no seu terço final que arrasta a obra de tal forma que tira muito do brilho inicial. Além disso, embora Olhos de Gato tenha outros discursos bonitos, como abrir mão de sua vida para escapar de seus problemas, e mostre como não podemos fazer alguém feliz sendo outra pessoa, falta desenvolvimento de personagens importantes, como a família de Miyo e do avô de Kento.

No mais, Olhos de Gato compensa o tempo investido e te deixará pensando o que te perguntei lá no início: o quanto de concessão você já fez por alguém para se sentir amado?

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