Três meninos e uma menina estão naquele limite em que a infância começa a dar lugar à adolescência, quando seu mundo é virado de cabeça para baixo. Já ouviu essa história antes? Foi na Netflix? Um dos meninos era negro? Tinha algum mistério envolvido? Talvez um dos pais de algum deles que sumiu? Ou algo perigoso? Talvez role uma paquera quando uma menina estranha entra pro grupo? E se a história for em outra época ou outro lugar de que já ouvimos falar mas não conhecemos bem? Stranger Things? Everything Sucks? Anyone? É, On My Block é mais uma tentativa da nossa emissora de programas on demand preferida de capitalizar na fórmula bem sucedida de trazer a juventude, suas questões e anseios, em uma série que nos leva em uma viagem ao passado, ou ao desconhecido, ou… a um bairro chicano.

A premissa da historia é legal.

Life is hard in tha hood, esé…

Nesse drama adolescente, um grupo de amigos de infância está há uma semana de começar o primeiro ano no segundo grau e – além de todo o nervosismo desse rito de passagem, as inseguranças, os anseios, os sonhos de juventude – eles precisam lidar com a realidade dura da vida em um bairro barra-pesada onde duas gangues rivais disputam território. O grupo – os geniozinhos da escola – precisa ajudar seu amigo, Cesar Diaz (Diego Tinoco), irmão do líder de uma das gangues, a se livrar da tradição familiar de ingressar no mundo do crime. Em paralelo, nessa comédia pastelão, Ruby Martinez (Jason Genao), um punheteiro inveterado que lembra muito uma versão de 13 anos do Leonard de Big Bang Theory, herda o quarto do irmão mais velho que foi pra faculdade… por um dia, até que é forçado a dividir o quarto com sua abuelita. Desesperado pra bater uma na tranquilidade do sacrossanto aconchego de seu próprio quarto, Ruby tenta encontrar um plano pra se livrar da velha maconheira (!!??)… e, quando consegue, sua prima gatinha aparece pra morar com sua família… que lhe oferece seu quarto, deixando o moleque, obviamente, tarado por ela.

Mas as questões da puberdade não param aí. Nessa comédia romântica, Monse Finnie (Sierra Capri), a única menina do grupo, tira o aparelho e de uma hora pra outra, também fica gatinha e rola um clima estranho que leva o grupo a excluir Cesar. Se isso não bastasse, nessa coming-of-age story, Monse precisa lidar com os fantasmas de seu passado ao esbarrar com sua mãe desaparecida quando a menina ainda era criança. Além disso, nessa divertida aventura, Jamal Turner (Brett Gray) é filho de um ex-astro de futebol americano e tenta sobreviver à pressão do pai em seguir seus passos no esporte, apesar de ser um nerd magrelo e desengonçado. Jamal não apenas não entende nada de esportes como seu hobbie preferido é especular sobre teoria da conspiração, em especial sobre o tesouro desaparecido de um roubo acontecido em fins dos anos 70. É aí que a história se transforma em um tributo à Goonies, com direito a easter eggs muito pouco escondidos.

E há também momentos felizes e alívios cômicos! E muitos, muitos closes de peitinhos, além de piadas de pinto.

A pergunta que falta responder é…então, a série é ruim? Não. É boa? Também não. Se fosse um drama contando a história de uma família mexicana envolvida com o crime organizado e narrado pelo ponto de vista das crianças da família seria legal. Se fosse uma comédia romântica adolescente passada no bairro mexicano, com seus bailes de quinceañeras e dramas e ciúmes de telenovelas, teria sido legal. Se fosse uma comédia étnica, no estilo Fresh Prince of Bel-Air, seria legal. Se fosse uma caçada ao tesouro in the hood seria legal. Mas a série tenta ser tudo isso ao mesmo tempo e não consegue definir sua identidade em nenhum momento. Não que eu ache que uma obra audiovisual precise de um rótulo ou “gênero”, mas caralho! Faltaram apenas alien, poderes sobrenaturais, putaria e serial killer pra série abordar todos os gêneros possíveis!

A história não é ruim, a trilha sonora é bacaninha, com seus raps e músicas chicanas (com um cameo de Vampira dos Misfits na trilha sonora do quarto episódio), os atores são bons e os personagens agradáveis, e, tirando uma fala aqui e outra ali onde os guris de 13 anos nos lembram que Dawson’s Creek obrigou todos os adolescentes do mundo a lerem filosofia e a falarem como universitários-hipsters-pretensiosos, não há nada de errado com o roteiro. A direção de arte acerta em cheio com os cenários do subúrbio de L.A., com as mamacitas de roupas coladas, os cholos passeando em seus carrões dos anos 70 com suas bandanas e tatuagens, o grafite, as gírias. Vale pela inclusão desse universo sempre ignorado no mundo das séries internacionais. Poderia ter sido muito bom. De verdade. Mas pecou feio quando resolveu não se resolver. O fim, meio cliffhanger, meio novela mexicana, ajuda muito pouco. Mas ao menos é divertido de se assistir.

Tem caça ao tesouro? Sério?

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