Operação Enganosa é um documentário como muitos outros que já vimos. Há um tema central que é alvo de inúmeras críticas, muitos dados estatísticos são apresentados, sempre muito dinheiro está envolvido e praticamente não há representantes do lado sabatinado. Nesse caso, o tema gira em torno dos dispositivos médicos vendidos e usados por milhões de pessoas nos EUA. Falando da terra da oportunidade, vale uma ressalva quanto ao sistema de saúde público americano: ele é virtualmente inexistente, mesmo com o Obamacare de 2010 mexendo nessa estrutura. Logo, para fins de entendimento da obra, é importante que você tenha isso em mente.

Todos somos ou já fomos beneficiados por inovações tecnológicas na área da saúde. Eu mesmo passei incontáveis noites hospitalizado por conta da minha asma e bronquite e com os quais convivo bem dado os aparatos médicos e medicamentos que estão disponíveis no mercado. Até onde eu sei, todos os meus médicos sempre prescreveram tratamentos e remédios pensando SOMENTE na minha saúde – o que de fato deveria ser a regra -, sem ganhar qualquer outra coisa além da minha gratidão e do dinheiro do plano de saúde. Mas esse “até onde eu sei” termina quando aqueles caras bem vestidos e super agradáveis com as recepcionistas furam a fila e entram na sua frente no consultório com malinha para convencer seu médico a receitar os medicamentos que eles vendem. De onde você acha que sai a amostra grátis que você recebe?

Muito já foi falado da indústria farmacêutica, indo de drogas que não funcionam até teste com animais. Muito da falcatrua que existe nesse universo obviamente existe também na indústria de dispositivos médicos, mas o que Operação Enganosa mostra é um nível de permissividade assustador para com esse setor, gerando complicações médicas devastadoras. A FDA (Food and Drug Administration, a ANVISA americana), órgão que regula o setor, trava uma luta interna e externa para conseguir regularizar esses dispositivos de forma apropriada há décadas, mas sem muito sucesso. Só para se ter uma ideia, o setor farmacêutico precisa passar por duas baterias de testes com centenas de pessoas testadas – e mesmo assim apresenta inúmeros problemas – e o setor de dispositivos médicos só precisa passar por uma bateria com casos de até 100 indivíduos testados. Mais grave ainda é a brecha criada no sistema chamada de 510(K), que possibilita aprovar dispositivos sem teste caso ele seja baseado em algum outro dispositivo já aprovado. Isso permitiu criar uma cadeia de produtos com o passar dos anos que essencialmente não apresentam qualquer semelhança com os aprovados por testes.

Os diretores e ex-presidentes da FDA também têm motivações escusas. Muitos estão mais do lado de quem eles deveriam regular, vindo e/ou indo para cargos importantes em indústrias farmacêuticas/dispositivos médicos ou sendo possuidores de ações dessas empresas. Seria como se o presidente da ANATEL fosse um ex-diretor da Oi e depois que saísse do cargo fosse ser diretor da Vivo. Obviamente há aqui um grande conflito de interesses e o documentário acerta em cheio em mostrar que não se trata de uma questão de saúde, mas, sim, financeira. Se 5% dos pacientes que colocam uma prótese desenvolverão problemas neurológicos por contaminação com cobalto, então compensa financeiramente.

Infelizmente, todos os dispositivos foram fabricados para “atender” pacientes com enfermidades comuns, com milhares de potenciais consumidores, o que faz total sentido comercial. Só há venda com demanda, mesmo que inflacionada pela propaganda. Pessoas com doenças graves, mas raras, sequer terão a seu dispor qualquer ajuda que não seja paliativa, já que não há um mercado que proverá retorno financeiro para o desenvolvimento de remédios e aparatos medicinais.

Embora Operação Enganosa não seja uma obra de confronto estilo Michael Moore, ela lança um olhar preocupante na estrutura comercial que permeia todos os aspectos da nossa vida e, dessa vez, de forma literal.

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