O ano de 1968 foi bem complicado na história americana. Os EUA se preparavam para escalar sua presença na Guerra do Vietnã, Martin Luther King foi assassinado e a grande esperança daquela nação, Robert Kennedy (o Kennedy menos famoso) também fora assassinado no momento que seu nome era ventilado como o candidato do partido democrata para a eleição para presidente daquele ano. Em função disso tudo, a convenção do partido democrata para escolher o seu candidato para presidente em agosto de 1968 tomou contornos outrora inimagináveis, com milhares de manifestantes confluindo a Chicago para protestar principalmente contra a guerra.

É nesse cenário que Aaron Sorkin, um dos grandes roteiristas do Cinema americano de hoje, traz esse Os 7 de Chicago, que também dirige além de roteirizar. Talvez por seu nome, talvez pelo apoio da Netflix, talvez pelo momento de absoluta polarização e inflamação dos ânimos que vivemos hoje, Sorkin juntou aqui um elenco que reúne uma dezena de indicações e vitórias no Oscar para contar essa história que, ainda que tenha acontecido há 52 anos, segue pertinente e bastante atual.

Sorkin traz um roteiro bem sofisticado em sua estrutura, indo e voltando no tempo para contar a história do julgamento de 8 lideranças envolvidas naqueles protestos (que eventualmente se tornam 7) a partir dos acontecimentos no próprio tribunal, o que me pareceu um grande acerto do roteiro. Isso porque, talvez ciente de que este foi um acontecimento que provavelmente não está nas memórias da maior parte dos americanos por ter sido há tanto tempo e principalmente pelo fato de que os protestos não tiveram lá grandes consequências (ninguém morreu, algumas pessoas ficaram feridas, os candidatos democratas eram ruins e Nixon já se sabia que ganharia a eleição de toda forma), Sorkin pegou um evento real e conseguiu trazer com sucesso um elemento de tensão de quem realmente não sabia o que ia acontecer, o que imagino ser bem mais forte em qualquer pessoa de fora dos EUA.

Aqui, contudo, jazem os que acredito que sejam os principais problemas do filme enquanto obra. Primeiramente, toda a questão por trás dos protestos é bastante obscura, em especial para o público não americano. São várias pessoas, de vários grupos diferentes, que a gente não faz ideia do que querem ou representam para além da superfície. Não dá para entender, por exemplo, porque aquela convenção especificamente era tão importante para que a manifestação fosse realizada lá, ainda mais quando a maior parte das pessoas envolvidas nem em Chicago morava. Um pouco mais de contexto aqui teria ajudado bastante, ainda que talvez quebrasse o ritmo do filme. Talvez um americano tenha uma impressão diferente da minha, contudo.

Em segundo lugar, eu fiquei o tempo todo com a impressão de que aquilo estava sendo exagerado para se passar a mensagem e, ao pesquisar a respeito depois de assistir ao longa, pude conferir que estava mesmo. Como já disse acima, todo o ocorrido não teve maiores consequências que não muita gente ferida e a cobertura da mídia não foi tão absurdamente presente como o filme nos leva a crer. Em suma, a relevância do evento foi aumentada para que a mensagem anti-establishment pudesse ser passada, o que é, até certo ponto, salutar, mas que também corre o risco de alienar a pessoa mais conservadora que justamente está buscando algo que corrobore as suas ideias, sendo necessário uma precisão suíça nos fatos para que ela cogite mudar a sua mentalidade.

Dito isso e com essa pulguinha atrás da orelha durante toda a exibição, o fato é que Os 7 de Chicago é uma excelente obra de seu gênero e muito disso se deve não só ao roteiro que já elogiei aqui, mas também à atuação de gente graúda e premiada, como Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Mark Rylance, Frank Langella, Joseph Gordon-Levitt, Michael Keaton e do sempre ótimo e subestimado John Carrol Lynch. É na força dos excelentes diálogos de Sorkin e da competência deste elenco que o longa se cria, com destaque para o também excelente Yahya Abdul-Mateen II como o lendário líder dos Panteras Negras Bobby Seale.

Os 7 de Chicago se propõe a discutir o autoritarismo, o abuso de poder, o preconceito e a absoluta parcialidade de um sistema de justiça feito para subjugar tudo aquilo que não está conforme o que se tem como o “normal”, seja por você ser preto, judeu ou um branco que ousou falar e lutar contra alguma injustiça. Se o sistema quiser te foder, ele vai te foder e sua força é tamanha que nós, enquanto cidadãos, precisamos entender que jamais podemos nos curvar ao que se tem como lei quando esta servir para que injustiças sejam perpetradas. Basta lembrar que era ilegal que mulher votasse até bem pouco tempo atrás, o que é só uma dentre muitas e absurdas excrescências que todo sistema normativo costuma ter.

Aliando o drama de tribunal a uma tensão orgânica e diálogos diretos e bem-escritos, seja no tribunal ou fora dele, Sorkin, em seu segundo filme como diretor, consegue novamente cumprir plenamente aquilo que o seu próprio roteiro propõe, trazendo um filme relevante, atual e necessário, ainda que um pouco exagerado e parcial. O que importa é a mensagem e ela está lá estampada para quem quiser ver e ouvir.

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