play no vídeo abaixo e caso você tenha mais de 30 anos e não se emocione ao assisti-lo, saiba que você não teve infância e que pode desistir de seguir na crítica em paz. Eu tenho 36 anos e quando Cavaleiros estreou na Manchette em 1994 atingiu o pequeno Fields de 11 aninhos em cheio. Falei muito sobre a importância desse 1o contato com a produção animada japonesa – que no ocidente ficou conhecido como anime – através dos embaixadores do zodíaco no meu 1o Garimpo Crunchyroll, cuja leitura recomendo. Essa obra criou e retém, especialmente no Brasil, uma legião de fãs sem igual, tendo um canto cativo no coração de todo otaku oldschool e sendo apreciado até mesmo por otakus da era do streaming. Já perdi a conta de quantos recreios – tanto como aluno quanto como professor – passei sentado num banquinho do pátio da escola discutindo fervorosamente e em pé de igualdade com entusiastas de 10 a 40 anos. Com a estreia desse reboot de Cavaleiros do Zodíaco, certamente virão mais dias de discussão.

Porém, por mais que eu lembre da série sempre em seus grandes momentos, temos que convir que ela deixa muito a desejar em diversos níveis, desde narrativos até a animação em si. Você já reassistiu algum episódio? Peço gentilmente que não o faça. Passei por essa experiência e manchou um tanto a imagem que eu tinha e foi penoso até mesmo chegar ao fim do episódio. Além de estar datado e não dialogar tanto com essa nova geração de animes shounen que se consagraram nos últimos 10 anos, como os badaladíssimos “Fullmetal Alchemist: Brotherhood”, “Boku no Hero Academia”, “One Punch-Man” e o “Shingeki no Kyojin”, Cavaleiros apresenta algo – que à época era necessário – que não dialoga com a atual comunidade otaku no Brasil, a dublagem. O que se tornou uma de suas principais marcas e elevou alguns dubladores ao nível de estrelas, teria seu teste de fogo nessa nova produção. E assim que começou a 1a cena, com o narrador falando sobre Athena e dos bravos guerreiros que juraram protegê-la já fiquei balançado, mas, assim que subiu a trilha da abertura, já estava completamente emocionado cantando “Pegasus Fantasy” a plenos pulmões. De fato, a dublagem continua sendo o carro-chefe da obra, muito bem executada, com os dubladores originais na maior parte, e localizada.

Já tocando em um ponto sensível, vamos tirar logo do caminho o mais óbvio e o que mais incomodou assim que começou a ser divulgado material, a animação 3D. É MUITO RUIM. Ponto. Não há argumentação que sustente uma decisão tão infeliz quanto essa, especialmente para uma franquia tão icônica. Mas sendo um tanto o advogado do diabo aqui, ainda prefiro essa animação que parece cinematic de jogo de PS2 do início do milênio – ou como bem apontou nosso editor-chefe, “parece a Patrulha Canina” – do que aquela que simula uma animação clássica japonesa e tira qualquer possibilidade de imersão, tendo ali em “Ultraman” um dos poucos casos de exceção. Foi uma escolha infeliz, mas consciente e aqui e ali chegou a proporcionar bons momentos. Mesmo a modelagem sendo péssima e as texturas dos personagens darem a impressão que eles são action figures que se movem, as armaduras passaram uma sensação de peso e que de fato cumpriam seu papel como tal. A animação, especialmente nas lutas, teve uma fluidez que raros animes conseguem e, dado que a velocidade dos ataques é questão central aqui, caiu como uma luva. Eu sei que você está balançando a cabeça em desacordo e que acha que uma animação tradicional deveria ter sido optada e eu concordo completamente, mas, infelizmente, essa parece ser a tendência da indústria, completamente escrachada aqui. Sendo assim, não temos rios de sangue, orelhas não são cortadas e o Seiya não cabe mais nas mãos do Cassius.

A história adapta o 1o arco sem qualquer gordurinha. São apenas 6 episódios que adaptaram 15 do anime original, com algumas ceninhas de episódios posteriores. Essa redução drástica resultou em muitos cortes de fillers para agilizar a história e de até alguns pontos centrais da obra original, mas com o cuidado de preservar cenas clássicas frame a frame de lutas consagradas, inclusive mesclando momentos e lutadores diferentes na mesma cena. Isso despertou uma nostalgia e passou a impressão de que os roteiristas estavam cientes do tempo que tinham para contar a história e da importância de alguns momentos que não contemplavam a linha condutora do 1o arco, com o uso do fan service moderado, mas bem encaixado (vide a aparição de 5 Cavaleiros de Ouro e 1 de Prata dando aquele foreshadowing) . Além disso, estamos falando da adaptação de um anime dos anos 80 (não vou entrar no mérito da saga Hades e nem do Canvas) para uma geração 35 anos depois. Há todo um novo set de desafios a serem trabalhados, como por exemplo a conectividade possibilitada pela internet e a conciliação – que no original já era problemática – de cavaleiros e deuses num mundo moderno.

Como saída elegante, estamos presenciando a preparação do início de uma guerra cíclica que ocorre a cada 100 anos entre as forças de Athena resistindo às investidas da invasão de Poseidon e Hades ao mundo terrestre. Para formar as fileiras de Athena, algumas pessoas no mundo nascem com um grande poder que recebe o nome de cosmos e esses felizardos lutam entre si para ganhar armaduras – que agora são dog tags, confesso que achei interessante – e assumirem seu papel como fiéis e honrosos lutadores lendários. Contudo, 2 grupos se formam. Temos o já conhecido grupo liderado pela família Kido, que usou todo seu dinheiro e poder para encontrar essas pessoas especiais para direcionar a formação de um grupo sólido de Cavaleiros para proteger Athena (que cá entre nós, já sabemos quem é) e um outro grupo que advoga o fim dos deuses, investindo em tecnologias bélicas e criação de armaduras (lembra dos Cavaleiros de Aço?) para acabar com TODAS essas encarnações divinas.

Seria chato ficar fazendo aqui uma série de comparações além das já feitas, mas vale ressaltar que o ganho de sobriedade ocasionou perda em grandiosidade. Temos diálogos muito melhores do que na série original e que raramente despertaram vergonha alheia, mas foram concisas e sem muita urgência, as armaduras já estão na versão pós 12 Casas, o que significa menos fillers futuramente, e as lutas são bem coreografadas e decisivas, levando menos de 1 minuto em alguns casos, dando um peso grande à força desses guerreiros, mas cujo poder de destruição ficou bem mais limitado. Isso fica claro no Torneio Galático, que agora ocorre no submundo sem qualquer público, de forma completamente clandestina, enquanto no original dava mais audiência do que UFC na televisão.

Alguns pontos de fato incomodam, como a forçada de barra no poder da amizade com guerreiros que não cresceram juntos como no original, uma premissa ainda incoerente com alguns momentos muito forçados e enfadonhos e elementos cuja explicação já sabemos, mas não porque ela é apresentada, tal como a China sem máscara ou a identidade de alguns Cavaleiros Negros. Já falando na ausência de máscara na China, temos a mudança de gênero de Shun, que, a rigor, deveria também usar uma máscara. Embora estivesse preocupado em como ela seria retratada e como afetaria narrativa tão importante na construção desse 1o arco com seu irmão Ikki, saí completamente satisfeito. Ela encaixa sem qualquer alteração significativa e, caso não fosse a voz feminina, mal daria para notar qualquer diferença. Agora é esperar o reflexo disso na Saga de Hades, se é que você me entende.

Nas somas das partes, essa foi uma boa introdução à obra e que deve contar com mais algumas temporadas para fechar a história. Colocando de forma pragmática, Os Cavaleiros do Zodíaco: Saint Seiya é pior do que eu gostaria, mas melhor do que eu esperava.

Disse o Cavaleiro Fields. (Vantagem de ser professor e ter alunos talentosos. @lehzitan)

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