Antes de qualquer coisa, preciso avisar a todos que, apesar de Adam Sandler ser um dos protagonistas de Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe e deste se tratar de uma comédia, o filme está muito longe de ser daquele gênero de filmes que se convencionou chamar “Filmes de Adam Sandler”. Não se trata aqui de uma história maluca, com um elenco de amigos e piadas de mau gosto entremeadas com algumas poucas excelentes, mas, sim, de uma comédia dramática tocante e engraçada dentro das neuroses e problemas da família Meyerowitz.

Estruturado coma uma peça, com 6 ou 7 momentos diferentes, ainda que cronológicos, acompanhando as vidas dos membros da família Meyerowitz, o longa é mostrado basicamente como uma DR gigantesca dentro de uma família, mais especificamente na relação de um pai com seus três filhos.

Dustin Hoffman, com o usual brilhantismo, interpreta Harold Meyerowitz, um escultor extremamente narcisista e que passa a maior parte do tempo dando desculpas ao seu ego do porquê dele não ter tido o estrondoso sucesso comercial que imagina ser merecedor. Ele é casado com sua quarta esposa Maureen (Emma Thompson), uma riponga alcoólatra gente boa, e tem três filhos, Jean (Elizabeth Marvel), Danny (Adam Sandler) e Matt (Ben Stiller).

Falar qualquer outra coisa a mais acerca da dinâmica desta família seria dar spoilers da história. Temos aqui uma família severamente fragmentada e que orbita inexoravelmente “O Pai”, que é inclusive como Maureen se refere ao seu marido. Isto dá uma dica da importância e do tamanho que esta figura tem, enquanto pai, na vida de todos que o circundam, não apenas de seus filhos.

Conforme já comentei no nosso 1º Garimpo NetflixNoah Baumbach é uma espécie de Woody Allen pós-moderno. Ele escreve e estrutura suas obras de forma teatral – calcando-as inteiramente em diálogos verborrágicos e afiados – costuma retratar uma elite intelectual-artística de Nova Iorque em seus filmes e o faz, majoritamente, dentro da comunidade judia da cidade.

Temos então, aqui, MUITOS diálogos, muita gente tentando contornar seus problemas a partir do diálogo, muito embora ninguém esteja muito interessado em ouvir, mas muito mais em falar, tal qual é a realidade de quaisquer relacionamentos, sejam eles românticos ou familiares, eruditos ou ignaros. 

Partindo, mais uma vez, do que só consigo enxergar como questões indelevelmente pessoais ao diretor, Baumbach se vale da família Meyerowitz para montar um interessantíssimo retrato sobre a maneira como nós nos relacionamos com nossos pais e o caráter absolutamente definitivo que isto tem sobre as nossas vidas, personalidades e sobre quem acabamos por nos tornar enquanto seres humanos.

Propondo essa discussão por meio de diálogos meticulosamente bem escritos e se valendo das interpretações precisas de todo o elenco (inclusive de um inspirado Adam Sandler como o filho meio merda de Harold), Noah Baumbach – assim como já fizera em “A Lula e a Baleia“, sua melhor e mais célebre obra – usa uma família de uma realidade totalmente alheia àquela da maior parte esmagadora de nós para traçar um paralelo das relações humanas e familiares e o faz com sucesso.

Einstein, o ganhador da Palm Dog em Cannes esse ano.

Vale lembrar que esta é mais uma produção original Netflix, que, mensalmente, vem nos apresentando diversas obras, dos mais diferentes estilos, gêneros e orçamentos, mas sempre com uma coisa em comum: total liberdade criativa. E por isso, mesmo que seus detratores, travestidos de puristas, tenham vaiado esse filme quando ele foi exibido no Festival de Cannes porque ele não sairia nos cinemas, pelo menos até aqui, a Netflix deve ser aplaudida.

 

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