O garimpo de hoje vem para fazer coro com a Academia ao premiar Casey Affleck como melhor ator. Trata-se de um ator que já havia sido indicado anteriormente por sua também excelente performance como Robert Ford em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, mas cuja carreira variava desempenhos medianos e burocráticos em filmes horrorosos (Roubo nas Alturas) e atuações fantásticas, como essa em Tudo por Justiça.

Ao terminar de ver este filme, o espectador sai com algumas certezas:

1 – Nós não temos controle sobre absolutamente porra nenhuma nas nossas vidas, muito embora gostemos de acreditar que sim;

2 – A sensação de controle nos é tão cara que estamos dispostos a pagar preços altíssimos por ela;

3 – Christian Bale é possivelmente o melhor, mais consistente e mais sério ator de sua geração;

4 – Bastaria a Casey Affleck babar uma ou duas vezes a menos para chegar mais ou menos ao mesmo patamar, o que ele copnseguiu em Manchester.

Aqui vemos um exemplo de babada.

O item 4 foi um vaticínio meu de quando eu assisti o filme nos idos de 2014, que se comprovou e consagrou agora com o justíssimo Oscar de melhor ator dado à Casey Affleck por seu papel em Manchester à Beira-Mar. Aqui em Tudo por Justiça Affleck já demonstra nuances que ressurgiriam mais dilapidadas e naturais na sua interpretação de Lee Chandler em Manchester à Beira-Mar.

O filme nos mostra a vida altamente ordinária e medíocre (aqui usado na correta acepção da palavra) de pessoas morando em uma cidade metalúrgica que já teve seus bons momentos, mas que, com a entrada da China no mercado do aço, empobrece e decai diante dos olhos de seus habitantes. Mais ou menos como Volta Redonda.

Acompanhamos a vida de Russel Baze (Bale) e seu irmão Rodney Baze (Affleck), um veterano da guerra do Iraque. Russel é o típico irmão mais velho, senhor da situação, que mantém o irmão mais novo e merdeiro na linha e cuida do pai doente e quase morto. Nascido e criado no local, Russel conhece todo mundo e trabalha a vida toda na mesma siderúrgica na qual seu pai também trabalhou a vida toda. Seu irmão, Rodney, se alistou no exército, fez várias incursões durante a Guerra do Iraque e volta para casa perturbado, sem saber o que fazer da vida e se fiando exclusivamente no irmão para não despirocar de vez.

É em função das merdas que seu irmão apronta que Russel vai conversar com John Petty (Willem Dafoe), um agiota gente boa e bandido de araque da região a quem Rodney está devendo uma grana. John e Russel se conhecem há muito tempo, a conversa é amistosa e Russel promete pagar a John o que Rodney deve.

É então que a vida de Russel é virada do avesso, demonstrando a ele (e a todos nós) exatamente o quanto somos impotentes diante do acaso. Poupá-los-ei dos spoilers absurdos que obrigatoriamente eu daria se falasse qualquer coisa a mais sobre as circunstâncias do que acontece que faz com que tudo vá para o caralho, mas é bem óbvio que a mera ausência de Russel do seio familiar afeta sobremaneira a relação de Rodney com a vida.

Embora um tiquinho maniqueísta em determinadas passagens (o roteirista, que é também o diretor, meio que força a direção do filme), a história transcorre de forma muito natural e orgânica, quase como se aquilo pudesse estar acontecendo na vida daquele nosso tio que mora em outra cidade. Talvez até mesmo Volta Redonda.

Assim como em Manchester à Beira-Mar, o personagem de Affleck é simplesmente incapaz de lidar com a vida. Ele não está mais apto a viver naquela sociedade que o acolhe de forma bruta e indiferente, mesmo depois de ter manipulado sua mente para acreditar que estava no Iraque cometendo atrocidades em nome de uma proclamada liberdade de seu país e seus compatriotas. Affleck empresta verossimilhança e credibilidade a Rodney, além de alguns litros de baba.

Este filme, contudo, pertence à dupla Christian Bale e Woody Harrelson. Mesmo com um elenco excelente, que conta com atores oscarizados e indicados como Forest Whitaker, Willem Dafoe e o lendário Sam Shepard em papéis coadjuvantes, os personagens de Bale e Harrelson são a força motriz do cerne da história.

Christian Bale está soberbo como o sujeito boa praça, que se vê completamente perdido após ser lembrado violentamente o quanto de sua vida está entregue ao acaso e que agarra com todas as forças a nesga de controle que consegue ter ao final do filme, só soltando quando não havia mais no que segurar. Woody Harrelson, por sua vez, é um agente do caos, uma pessoa que está realmente falando foda-se para o mundo e para você, espectador, a cada olhar, a cada movimento, em uma performance crível ao extremo, mesmo em um personagem que comete atrocidades um tanto inacreditáveis.

Apesar das críticas sociais que o filme traz em relação a guerra do Iraque, que inunda as famílias americanas de filhos traumatizados, e a crescente decadência das cidades industriais dos Estados Unidos, o que traz consigo um aumento evidente da criminalidade, a questão primordial do filme está na importância de um esteio, aqui personificado pela família e, principalmente, na total ausência de controle que temos sobre a nossa vida e, muito mais, sobre a vida de quem amamos.

Ignoro porque um filme dessa qualidade e com nomes reconhecidos não teve mais destaque no Brasil. Felizmente, o filme está disponível no Netflix e você pode vê-lo, caso assine, clicando aqui.

Trata-se de um filme excelente, dirigido e roteirizado de forma sóbria e despretensiosa por Scott Cooper e vivido por um elenco reconhecidamente competente, em atuações que abrilhantam a realidade e tornam o mundano belo. É real, é forte, é crível. Como Volta Redonda.

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