Têm sido cada vez mais comum no acervo brasileiro da Netflix os títulos franceses originais do streaming. Tenho visto alguns e muitos têm sido bem agradáveis. Percebo uma nova tendência, pelo menos nessas produções, do Cinema francês: cada vez menos discussões acadêmicas e cada vez mais narrativa cinematográfica. Óbvio – e ainda bem por isso – que não são peças de mero entretenimento, mas conseguem trazer uma discussão em meio a suas tramas. Tampouco são aquelas típicas obras francesas que preferem citações de seus “grandes” filósofos em detrimento de um desenvolvimento narrativo, focando em um desnecessário academicismo. Ao que nos parece, eles têm encontrado o meio termo entre profundidade e entretenimento. O lançamento Oxigênio é mais um desses exemplos.

Há um filme com Ryan Reynolds, chamado “Enterrado Vivo”, no qual ele passa o tempo inteiro em um caixote subterrâneo, com um telefone, tentando indicar seu paradeiro para resgate, em meio à guerra ao Terror. A obra toda é passada nesse espaço, sufocando o espectador e conseguindo manter o interesse na trama que cada vez mais se torna angustiante. Muito semelhante a este, Oxigênio recria um conto parecido, mas com uma roupagem diferente: Liz (Mélanie Laurent) é uma mulher que acorda, repentinamente, em uma espécie de cápsula criogênica com pouca reserva de oxigênio e sem se lembrar de quem é, das motivações para estar ali, dos seus objetivos. Sua única companhia é a voz suave e confortável, mas por vezes irritante, da inteligência artificial que controla a cápsula, MILO. Liz terá muito pouco tempo para tentar desvendar todos esses mistérios e ainda sobreviver às mais adversas situações, em um espaço que lhe permite muito pouco movimento.

Liz e a IA.

Em tese, a estrutura do filme é bem parecida ao supracitado título com Reynolds, mas a produção francesa consegue criar muitas sensações e discussões aos seus espectadores. Os únicos instantes em que somos “tirados” da cápsula juntamente com Liz são os brevíssimos flashbacks que surgem como se a memória dela voltasse e a partir disso ela vai tentando recriar uma narrativa lógica dentro da sua mente, dos vestígios que lampejam dentro dela. Para além disso, um contato com o exterior é conseguido e a polícia e uma pessoa misteriosa, com informações contraditórias entre si, vão ajudando ou confundindo Liz em suas memórias nebulosas e sua vontade de conseguir sobreviver e de saber. Esses poucos elementos, no entanto, são o suficiente para a direção muito segura de Alexandre Aja manter seu espectador plenamente controlado e vidrado no que se passa na tela.

Aquilo que parecia um filme que não iria a muitos lugares – tal qual sua protagonista – se mostra, com o passar das sequências, uma obra que atinge muitos temas atualmente necessários: o caos na Terra, a iminente extinção da raça humana, o desenvolvimento científico que, por vezes, parece querer desafiar Deus, a essência destrutiva da humanidade na mesma medida em que traz em si uma centelha de esperança em suas ações e produções. Tudo isso se utilizando tão somente de uma personagem e algumas vozes, além de muito pouco cenário. Todas as decisões de seus realizadores ajudam na criação da atmosfera ideal para que esta história fosse contada da maneira que deveria.

Pensando e existindo.

Utilizando-se de mistério, ficção científica, distopia e um tanto de suspense, Oxigênio produz uma firme jornada a pontos extremamente existenciais da vida humana. De questionamentos individuais acerca da própria existência à denúncias mundiais sobre as relações coletivas, a nova produção francesa da Netflix nos coloca questionamentos interessantes sobre o nosso lugar no mundo ou em nós mesmo. Pensamos, logo… existimos?

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