Para começo de conversa, um aviso de utilidade pública: se você acha que séries como “Family Guy” ou “South Park” são politicamente incorretas e insuportavelmente ofensivas, fique muito, muito, mas muito longe mesmo de Paradise Police. Não sei nem se tenho um domínio suficiente do vernáculo para enfatizar o quanto você, ser de sensibilidades afloradas, não deve, sob hipótese alguma, assistir a esta série.

Paradise Police é basicamente uma skin nova de “Brickleberry”, série criada pelos mesmos alucinados Roger Black e Waco O’Guin para o Comedy Central americano e cujas 3 temporadas já estiveram disponíveis na Netflix, ocasião na qual eu até mesmo a indiquei em um Garimpo Netflix. Segundo o que falei no Garimpo, “Brickleberry” era uma série sobre guardas florestais numa reserva florestal americana que fazia piada com todas as minorias, esculachava impiedosamente as maiorias e, muitas vezes, levava as coisas a extremos de baixaria que só eram possíveis porque estamos falando de um desenho animado, já que filmar 10% das desgraças apresentadas seria realmente impossível por causa das reservas morais dos atores em cometer os atos escritos pelos roteiristas.

Basta trocar o cenário de uma reserva florestal para uma cidade pequena meio merda qualquer em algum buraco quente dos EUA e, voilá, habemus Paradise Police. Desta vez, contudo, talvez por não terem tido as amarras que uma emissora de televisão costuma impor aos seus produtores de conteúdo, Black e O’Guin conseguiram o que parecia impossível e levaram o escracho, o choque e o absurdo a limites que outrora pareciam inimagináveis. Cães cheirando pó no meio das tetas de uma cadela? Tem. Esculturas feitas de merda? Tem lá também. Um sujeito se passando por Jesus para comer o rabo de uma crente dentro da igreja? 6º episódio.

E é isso. Trata-se de uma série que é uma verdadeira metralhadora de piadas que vão se amontoando de forma muitas vezes forçadas e que parece ter um compromisso muito maior com o choque do que com qualquer outra coisa. Claro que por muitas vezes o choque e o absurdo funcionam e são engraçados, mas na maior parte delas a coisa somente parece apelativa e gratuita. Os criadores, a quem foi claramente dada toda a liberdade criativa possível, parecem querer chocar somente por chocar mesmo e, a partir daí, torcem para que encontrem na audiência mais alguém que vai achar graça em repetidas piadas visuais com vômito, porra, uso de drogas, começão de cu e jatos de merda, muitas vezes com todas essas coisas juntas numa mesma cena.

Mesmo assim, o saldo é positivo. A série, apesar de irregular, tem vários momentos de brilhantismo, com destaque para o 3º episódio no qual o policial negro atira em si mesmo e vira ao mesmo tempo o campeão das massas que apoiam os policiais e dos que protestam contra a violência policial contra a população negra. Este episódio tem um desfecho realmente genial e de chorar de rir, no qual o choque e a putaria brabíssima e ofensiva ao extremo contribuem de maneira fundamental para a crítica ao politicamente correto e à polarização absurda que vem tomando conta do mundo nos últimos anos. Aqui, a vontade de chocar aparece como um elemento da narrativa e são em momentos como estes, ao contrário daqueles muitos gratuitos, que a série realmente diz a que veio.

Outros pontos positivos também ficam por conta da excelente animação e do realmente fantástico trabalho dos dubladores no original em inglês, ainda que ambos sejam descaradamente reciclados de “Brickleberry”. É bom dizer também que esta é daquelas séries, tal qual são também “South Park” e as demais séries adultas animadas, nas quais ter um conhecimento excelente de inglês e da realidade americana é essencial para que se entenda tudo que está acontecendo e as nuances dos diálogos doentios e tresloucados. Não a vi dublada, mas certamente muita coisa mesmo será perdida na tradução, em especial os vários trocadilhos com cu e piru.

No geral, se você gostou de “Brickleberry”, certamente você vai gostar também de Paradise Police. Apesar de nesta 1ª temporada a série ainda não conseguir chegar ao nível da anterior, ela parece estar no mesmo caminho. Basta dar uma regulada muito de leve no choque e usá-lo mais a favor da história do que para si mesmo e provavelmente teremos uma 2ª temporada excelente.

Já para você que está em dúvida se vai ou não ficar ofendido com o que a série mostra, eu sugiro que você imagine se um caipira mijando numa mulher em público para lavar o vômito que ele mesmo havia jorrado em cima dela é algo que você acha tolerável ou não.

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