Joon-ho Bong é um dos grandes diretores coreanos da atualidade. Um daqueles que consegue equilibrar a difícil balança entre o Cinema autoral, profundo e pleno de significados com o entretenimento. Sem desqualificar um lado ou outro, ele produz a todo instante um filme mais impactante do que o outro. Ostenta, em seu currículo, obras de arte como o belíssimo “Memórias de um Assassino”, o inacreditável “O Hospedeiro” (já indicado em nosso Garimpo e constante de nosso Top 10 – Filmes de Monstro), o fabuloso “Mother – A Busca Pela Verdade” e o lindamente sensível “Okja“. Joon-ho Bong mantém sua pegada em seu lançamento Parasita, uma obra-prima vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano. Aquele que decidir adentrar pelas portas da sala de cinema para experimentar o que o coreano tem a oferecer definitivamente sairá chacoalhado até a alma pelas alegorias realistas criadas pelo mestre do thriller.

A família Kim, composta por pai, mãe, filho e filha, vive em uma espécie de sobreloja de um bairro pobre na Coréia do Sul. A contragosto daqueles que vêem no país o baluarte do capitalismo perfeito, quase todo filme de lá faz questão – e isso me é muito claro mesmo! – de expor o quanto há regiões pobres e pessoas vivendo em situações nada confortáveis no local. Logo na primeira sequência, uma espécie de mosquito é o foco da reclamação do patriarca Kim Ki-taek (pelo para além do excelente Kang-ho Song) em seu ambiente sujo e bagunçado, no exato instante em que passa um fumacê na rua, invadindo com aquela fumaça química a morada desta classe baixa. Como em um golpe de ironia, o diretor mais conhecido pelo filme “O Hospedeiro” cria a expectativa no espectador desavisado: seriam os parasitas aqueles insetos nojentos, a iniciarem uma epidemia sem precedentes? Mas não. A figura parasitária, como nos mostrarão as cenas a seguir, é outra. Uma bem mais familiar a cada um de nós.

Os parasitas de baixo.

Kim Ki-woo (em grande performance de Woo-sik Choi), o filho desempregado, é convidado por um amigo rico e estudado para ser o tutor (um tipo de professor particular) da filha da rica família Park, de idêntica formação à sua própria família. Questionado por não selecionar algum colega da faculdade, o rapaz responde a Ki-woo que não aguentaria ver a garota, por quem tem grande apreço, ser cobiçada por aqueles tipos universitários. Mesmo tendo sido subestimado, Ki-woo, sabedor de suas qualidades não formais, aceita o emprego e logo começa a trabalhar com o gosto dos líderes da família Park. O ambiente de trabalho é uma mansão gigantesca, efetivamente cinematográfica, que faz um paralelo abissal com a moradia dos Kim. Uma vez lá dentro, o garoto fará de tudo para empregar naquela mesma habitação seus familiares, sem que os patrões saibam dos laços que os ligam. Aos poucos, a família pobre vai se fazendo presente dentro da gloriosa casa Park, ganhando o dinheiro deles, em troca dos serviços prestados, porém enquanto charlatões. Definitivamente parasitas.

Como uma alegoria muito bem moldada para atender as atuais (apesar de velhíssimas) discussões políticas mundiais, Joon-ho Bong faz uma espécie de recriação de revoluções socialista no microcosmos. A classe proletária, oprimida, esmagada pelo capitalismo opressor se revolta. Faz-se presente dentro do habitat próprio dos burgueses repressores. Come de sua comida, bebe de sua água. Dorme em sua cama, perambula pelos seus corredores e cômodos. Faz deles o que é do outro. A propriedade privada agora é socializada, é violada por um grupo que decide tomá-la para si. Mas, assim como toda e qualquer revolução socialista, os quatro familiares pobres, para chegarem a esse topo, para se revoltarem efetivamente, necessariamente esmagaram seus iguais, obrigatoriamente destituíram e agiram contra pessoas de sua mesma classe. Ao oprimido não importa fazer com que a opressão desabe; não, isso é por demais simplório e ingênuo. Ao oprimido cabe tão somente ser o opressor. Aqueles socialistas de gabinete que usufruem de tudo o que o Universo tem a oferecer, mas que, em suas carcaças fajutas e máscaras de hipocrisia, criam uma ilusão engolida à força pelas massas controladas pelos seus discursos bonitos, porém igualmente falsos. A esses parasitas, em sua alegoria esculpida à imagem e semelhança de um David de Michelangelo, esta por Joon-ho Bong, o diretor encarna a família Kim. Charlatões que traem a sua própria classe para conseguir um pouco mais de recurso, que deveria, sim, estar disponível a todos eles.

Os parasitas de cima: Park.

Por outro lado, o cineasta não incorre em um famigerado discurso elitista ao impor o caráter parasitário àqueles agentes que estão abaixo na cadeia alimentar social da Humanidade. Do mesmo jeito, a família Park nos é registrada como um outro tipo de parasitas. Não pense você que aquele burguês – estupidamente rico e mantenedor de um estilo de vida que chega a se mostrar violento se comparado às situações extremas de quem está no fundo do poço da hierarquia social – também não é um parasita. Grupos que usufruem dos mais altos níveis de poder e riqueza sem produzir nada não passam de insetos, agentes parasitários que estão a tomar o que é do outro para favorecer a si próprios e a si próprios somente. “Estava no trabalho cansado e resolvi passear de carro”, afirma o patriarca Park (pelo maravilhosamente versátil Shun-kyun Lee) ao seu motorista, o “chefe” da família, Ki-taek. A cena que Joon-ho Bong nos mostrara na sequência anterior testemunhara um senhor Park sentado em cadeira perfeitamente confortável, em local de alto nível, não demonstrando qualquer esforço; na realidade, em uma expressão plena de tédio. Sem fazer nada em seu trabalho, o senhor Park mantém uma mansão com empregados. Com serventes que correm de lá para cá, prontos a atendê-lo. Prontos a dar a sua vida, e cada segundo dela, para conseguir fornecer o que quer que seja aos desejos do grande Park – ou de qualquer Park, na verdade. “Não se preocupe, pagaremos suas horas-extras”, anuncia o patriarca em uma das falas mais violentas do filme. Não somos comprados. Não somos objetos ou a encarnação de nossos trabalhos. Somos pessoas. Burgueses, igualmente parasitas!

O Cinema coreano sempre foi preciso em suas construções ao nunca – NUNCA MESMO! – cair no velho embate pueril de uma dualidade em que um encarna o bem e o outro o que é ruim. Da mesma forma, Joon-ho Bong segue em seu discurso político, reduzindo toda e qualquer relação humana a uma relação meramente parasitária. Talvez por ser coreano e experimentar obrigatória e historicamente a demarcação vil de separação de um mesmo povo, a viver, cada qual em seu grupo, uma relação parasitária com seu governo e com sua sociedade. De um lado, um ser que se assume supremo e que, travestido de fantasias de igualdade, promove o massacre da mente; de outro, um modelo que se considera o próximo do perfeito, a esconder debaixo de seus tapetes, bueiros e porões (ou sobrelojas) homens e mulheres sem face a vestir um uniforme que os transforme na velha e absoluta engrenagem a manter, anônima, o funcionamento do sistema; aquele mesmo sistema que o esmaga a cada giro da roda que se movimenta por sua ação repetitiva e já demasiada inconsciente. Mas, ainda que internamente, o indivíduo que sofre também pode encontrar sua catarse. Aqui, a revolução – esta agora pessoal – se mostra como a tentativa sincera de libertação.

Parasita.

Parasita destrincha com marcante perfeição as ações humanas, lapidando suas alegorias microcósmicas ao narrar um conto com suas 2 horas e 12 minutos, que gritam a cada frame o eterno comportamento cruel presente no macrocosmos gerenciado por uma raça que destrói a si mesma, dia após dia, ao longo da existência. Uma daquelas raras peças que são para além de uma simples “nota máxima”, de escalas limitantes; uma obra que merece ser guardada em uma ilusória Arca de Noé pós-moderna.

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