Nos anos 80, o ser mais mitológico da história da Terra e em especial do Cinema, Chuck Norris, estrelou uma série de filmes pavorosos e que só eram bons para nós, crianças e adolescentes da época, que podíamos assistir a gente branca e loira dos EUA devastando algum lugar com gente mais morena na porrada em nome da liberdade. A série era “Comando Delta” e, apesar de ter Chuck Norris, o único e verdadeiro mito desta Terra de meu deus, ela era lastimável, aquele tipo de filme que fez a fama dos filmes-merda dos anos 80 que depois viriam a ser zuados incansavelmente pela cultura pop futura e principalmente pelo excelente e subestimado “O Último Grande Herói”, com o Arnoldão.

Pois bem. Paskal: Missão Resgate é isso. É a versão malaia e, que cabeças explodam agora, piorada de “Comando Delta”. E você talvez esteja pensando, fiel que é ao mito Chuck Norris, que eu estou falando que é piorada só porque não tem o Chuck Norris. Mas eu prometo que não. Ela é pior porque é pior mesmo, porque o roteiro é uma coisa dantesca, a direção não existe, as atuações são, sem sacanagem e nem exagero, patéticas, a edição faz um desserviço a uma obra que já é ruim e, por fim, a trilha sonora é das coisas mais horríveis e genéricas que já ouvi na vida. A impressão que se dá é que os produtores viram vários “crássicos” dos anos 80 no estilo “Comando Delta” e “American Ninja” e enxergaram ali naquela pilha fumegante de esterco uma grande inspiração para esta que é uma mega produção do cinema malaio, feita com o óbvio e descarado intuito de apelar para as audiências estrangeiras e mostrar a Malásia como a grande potência do sul asiático e sua protetora.

Paskal, apesar de ser nome de cientista, nerd e professor de português, é na verdade uma espécie de força especial da marinha da Malásia. O filme passa um longo tempo no seu início explicando com textos que aparecem na tela fazendo aquele barulhinho escroto de texto aparecendo na tela exatamente o que é, fazendo um puta esforço para apresentar esse pessoal como grandes heróis na proteção da nação. Logo depois, contudo, o que o filme nos mostra é que eles são basicamente guarda-costas de grandes empresas petrolíferas, fazendo praticamente o que o Comando Delta fazia e matando gente mais escura e mais pobre que eles.

O longa segue a história de Arman, um oficial do Paskal que quer seguir os passos do pai, morto em combate. Acompanhamos seu treinamento, suas primeiras missões, decepções e perdas no serviço militar, tudo apresentado seguindo tin tin por tin tin a formuleta que já vimos zilhões de vezes em (lamentáveis) obras parecidas, inclusive valendo-se de um conflito interno e meloso do rapaz porque sua mamãe não queria que ele entrasse pro exército que fez com seu marido morresse. Óbvio que no final, quando ele tiver salvado o mundo (que no caso é um plataforma de petróleo), ela vai se arrepender disso e tudo ficará bem.

O roteiro e os diálogos conseguem ser tão constrangedores quanto às atuações. Cena após cena minha incredulidade aumentava até o ponto em que por vezes comecei a gargalhar com as caras e bocas que o elenco claramente despreparado, dirigido por alguém que não parece saber o que está fazendo, fazia a todo momento. Há uma cena logo no começo em que uma operação do Paskal dá certo e as pessoas comemoram em alguma sala de controle que é de se mijar de rir de tão patética, com figurantes sem saber o que fazer e um ator ali no meio que parecia tão perdido quanto.

O roteiro segue a mesma linha ao apresentar conflitos absurdos, soluções que não fazem o menor sentido e ao escrever cenas totalmente contraditórias. Dois bons exemplos são o tal do Paskal entrando numa plataforma matando geral de forma muito barulhenta enquanto os piratas têm em seu poder 63 reféns e total ciência de que estão sendo invadidos. Os piratas então simplesmente vão morrendo, sem usar os reféns em momento algum, que escapam todos ilesos. Outra coisa absurda é que dois caras pulam dessa mesma plataforma de petróleo ao mar para fugir e, quando o vilão principal está para cair no mar da mesma altura, o mocinho se desdobra todo para tentar salvá-lo, pois uma queda dali seria a morte dele. E eu poderia continuar aqui listando desgraça atrás de desgraça, mas, sinceramente, eu já perdi quase 2 horas da minha vida vendo isso aqui e minha abnegação para vir aqui salvar vocês disso tem um limite.

De todo modo, todos os elementos horríveis do longa seriam perdoáveis se pelo menos a ação fosse boa. Mas não é o caso. Tudo aqui parece um comercial das forças armadas do Brasil que passava no intervalo do Globo Esporte quando eu era moleque. Eles ainda tiveram a audácia de escalar o astro dos filmes de porrada de Hong Kong Tiger Chen para fazer uma ponta em que ele basicamente dá uma porradinha num cara e vai embora. É muita audácia!

A ação é genérica, boba e, por vezes, inverossímil, o que só é escusável quando ela entretém, o que não é o caso MESMO. E, mais, este é um filme longo e modorrento, no qual só há mesmo 3 cenas de ação. Todo o resto é embromação, tentativa de desenvolver personagens completamente rasos e uma propaganda rasgada das forças armadas malaias.

Tudo isso incomoda e torna o filme inassistível, mas o que é mais bizarro mesmo é uma maluquice do caralho daquele velho e vetusto discurso de que o militar está aí para servir a liberdade de sua nação. Enquanto que os soldados americanos estão já há décadas morrendo e matando para garantir os direitos das empresas americanas a contratos bilionários na indústria da construção civil e, principalmente, do petróleo, aqui fica muito claro que essa porra desse Paskal só existe para servir como cão de guarda das grandes petrolíferas mundiais.

Em suma, a obra é toda um desastre, seja no conteúdo, seja na forma, seja na mensagem, então, se você, por algum fetiche bizarro, quiser ver uma obra malaia, será muito melhor assistir ao irregular, porém relevante, “Crossroads – One Two Jaga“, sendo que Paskal não funciona como filme de ação ou como filme de qualquer gênero. Apenas um forte sentimento patriota explica a nota altíssima que este filme tem no IMDB.

Sugestões para você: