Sou agnóstica, mas meu ceticismo tem sido posto em cheque de uns tempos pra cá. A magia que a vida por vezes proporciona – toques, afagos, encontros e coincidências – faz com que eu reavalie a já acostumada solidão de existir no mundo apenas por existir, sem criador ou propósito, sem explicação e fim. Não que eu precise de um Deus; não preciso. Mas também não quero cair na arrogância de dizer que nada além existe pois basta olhar ao redor pra ver coisas tão além de mim.

Como que um presente, indo de encontro a esses meus delicados pensamentos, Pelas Ruas de Paris roda na tela. O que começa como um filme sobre um casal e nada mais, sem grandes anúncios de inovação, parecendo só trazer mais uma história de amor pra tela, mais adiante te tira o tapete e faz cair – ou seria flutuar? – a partir das poéticas reflexões de Anna (Noémie Schmidt).

O filme nos proporciona um tour pela relação de Anna e Greg (Grégoire Isvarine), desde seu início até o ponto atual de crise em que o cara decide ir para a Espanha e Anna tem que decidir o que quer da vida diante disso. É interessante a contraposição nostálgica do passado inocente de dois jovens recém-conhecidos e apaixonados e, mesmo que jovens ainda, do agora de dois indivíduos que enfrentam impasses do crescimento para lados distintos.

Anna se parece um pouco comigo, na medida em que inicia uma relação imaginando seu fim. É algo meio doentio, eu acho, mas é o que sempre me vem quando estou com alguém: a certeza do fim. Ter me visto um pouco em tela foi um alívio. Acho que as semelhanças param por aí; Anna está confusa sobre o que quer da vida, sobre o que é amor, sobre porquês, tantos porquês, sobre sua nação e por aí vai.

Passeamos nessa confusão na forma mais bonita que poderia ser: através da arte. Contando com um roteiro poético belíssimo, entramos na imersão da mente de Anna, em seus ora delírios ora epifanias. Acredito que esse filme seja palatável especialmente para o público mais jovem – não que não possa ser apreciado pela galera mais experiente, no entanto – por tocar em pilares ainda em formação nos indivíduos da casa dos vinte. Distancio-me e aproximo-me de Anna conforme o filme roda e isso é honroso pois trata-se de uma obra feita noutro país. Ou seja, a história cumpre o que a verdadeira Arte propõe desde seus primórdios: tocar os mais variados tipos por aí que puder alcançar.

Por fim, nesta viagem temporal não-linear, num mergulho sem muito compromisso com o racional (e isso é definitivamente um elogio nesse contexto), refletimos profundamente sobre as relações que temos com o mundo e que o mundo tem conosco. Brindemos aos fins amargos, recomeços turbulentos e saudemos os começos irreplicáveis, pois só assim temos a certeza de que são começos, fins e recomeços – e, ironicamente, de nada mais certeza temos.

Liberdade, já diria Sartre, é angústia…

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