In Media Res começa o primeiro episódio com ação ligada a 110% já no primeiro minuto. Um cliffhanger que entra em outro cliffhanger e assim por diante… numa visível homenagem às histórias de ação do passado. Histórias daquelas em que ação era ação porque o tempo exigia pressa, ou porque o perigo nos mordia os calcanhares.

Lembra dessas histórias? Raras hoje em dia, não? Em outros tempos, essa era a norma e Perdidos no Espaço, lançamento do dia da Netflix, é uma releitura de um clássico de outros tempos. E é aí que mora o perigo, pois releituras (ou reboots ou remakes, chame como quiser) em geral são um grande cocozão. E o são porque Hollywood tem o hábito de comprar os direitos dessas histórias e colocá-los nas mãos dos cineastas do momento em busca de “lucro certo” escorando-se em nostalgia. E, como todos sabemos, cineastas – em especial os ” do momento” – são aqueles caras que entendem tudo de como fazer filmes mas não necessariamente de contar histórias. Sua preocupação parece ser sempre a de “como adaptar essa mídia para aquela, ou como atualizar esse título para os tempos atuais?”

Lost in Space (2018)

Em geral, eles trazem de volta os personagens e trama originais, atualizam os efeitos especiais, repaginam a estética de época atualizando a moda mas mantendo-a o bastante pros fãs radicais se sentirem incluídos, e assim tocam o bonde. É raro que eles se preocupem com a simples premissa: o que fez com que esse filme ou série tenha se tornado um clássico e como tais elementos se tornam relevantes hoje em dia? Qual é o centro da história e do que a história fala? Nesse caso, Matt Sazama e Burk Sharpless (roteiristas de “clássicos” como “Deuses do Egito“, “Drácula: A História Nunca Contada“, “O Último Caçador de Bruxas” e o mais recente filme dos Power Rangers) acertaram em cheio ao descrever os dramas de uma família que por acaso vem a estar… perdida no espaço. E como atualizar a história da família “dó-ré-mi” dos anos 60 pra agora? Contar a história de uma família disfuncional, claro!

Molly Parker, Toby Stephens, Maxwell Jenkins, Mina Sundwall, and Taylor Russell in Lost in Space (2018)

Lançada em 1965 (no calor da corrida espacial), Perdidos no Espaço conta as aventuras da família Robinson, uma daquelas famílias americanas perfeitas e idealizadas da época, com direito ao menininho batutinha fofo que só se mete em encrencas, seu robô, um piloto da força aérea responsável por conduzir a espaçonave Júpiter 2, e um curioso personagem chamado Dr. Smith, que no original era um espião de algum país jamais nomeado e que infiltrou a nave para sabotá-la. A nova série precisa então rever as relações familiares dos tempos dos meus pais (seus avós, talvez) quando o papai-sabe-tudo cientista, de fato, sabia tudo e sua linda familia obedecia a todos os seus comandos… mas não muito porque… você sabe… esses jovens danadinhos!

Nos dias de hoje tal gênio da ciência seria, obviamente, a mãe. O pai seria um milico meio brucutu mas de grande coração que não faz ideia de como diabos pegar a estrada de volta pra casa. Os filhos são: uma menina adotada que acabou de fazer 18 anos mas já é médica formada, além de ter tido treinamento militar, uma adolescente ruiva meio pipa-avoada, dessas que está preocupada com seu penteado e em chamar a atenção dos meninos, e um guri nerd que nunca viu uma bolinha de gude fora de um app de celular. Papai e mamãe não se entendem bem e os filhos têm que ser os adultos da família. Parece com algo que você já tenha visto? Some a isso um Dr. Smith versão feminina e sociopata (porque em tempos de GoT também queremos um lado piroca das ideias do empoderamento feminino) e um robô de passado e objetivos duvidosos e… jackpot! Estamos em 2018 com louvores.

Parker Posey in Lost in Space (2018)

A direção de arte, o roteiro, a direção, edição, efeitos e qualquer quesito técnico que você possa imaginar estão lá, obviamente, sem qualquer falha perceptível. A música-tema original aparece remodelada mas sem perder o charme. Pra deleite de todo mundo que viu o original (tipo eu), o robô se chama “Robô” e fala como o Robô falava, com direito a sorriso desse teu camarada a ouvir uma das frases mais famosas da SciFi mundial, a estética breguinha dos tempos do “iê-iê-iê” está lá em discretas referências pra agradar a quem quiser ser agradado, mas sem transformar a série em “sessão naftalina”.

Por fim, mas não menos importante, há o elemento “ação”. Não é uma série de “ficção cientifica” apesar de ser passada no espaço. Não houve nenhum exagero de maldade humana que pudesse ter atraído a HBO para o projeto, mesmo com uma Dr. Smith bem mais psycho que no original. O elemento principal é aquela ação desavergonhadamente mentirosa que deixa a gente na beirada do sofá o tempo todo, quase sem tempo pra respirar. São 10 horas sem tirar de dentro até o último segundo.

Maxwell Jenkins in Lost in Space (2018)

Ok, talvez um pouco demais, mas não chega a desagradar. E eu teria concluído com uma nota máxima retumbante de 5 claquetes não fosse um simples detalhe. Talvez no afã de incluir uma certa ingenuidade dos anos 60, ou talvez pra justificar certas reviravoltas mirabolantes, os personagens foram descritos de forma um tanto pitoresca. A grande maioria deles é de cientistas – colonos indo povoar um planeta em Alpha Centauri – todos especialistas em suas áreas. Todos extremamente racionais e absolutamente desprovidos de qualquer tipo de inteligência emocional em tal extremo que todas as decisões erradas de toda a temporada podem ser atribuídas a esta simples característica. Nenhum dos pais tem qualquer condição de criar os próprios filhos, nenhum dos adolescentes são prudentes em nenhuma situação, o único personagem que age como adulto é o menininho de 11 anos e a única pessoa capaz de tomar decisões inteligentes sob pressão é a sociopata… Se bem que… acho que a série apenas descreveu com precisão a realidade e eu que estou sendo exigente.

Portanto, se você tem fome de ação e de efeitos de tirar o fôlego, se tava sentindo falta de um pouco de nostalgia e se a palermice do comportamento adulto vs a brilhante mente de uma criança é um conceito que não te incomoda, maratone-se. E depois me diz se ouvir “Danger, Will Robinson” de novo não é do caralho!

Sugestões para você: