Uma das tarefas mais difíceis de se contar uma história sensível e tocante reside no fato de fazê-la sem apelos ou pieguice. Quando se decide por falar sobre uma criança problemática, o nível de dificuldade se torna exponencial. Produzir algo semelhante ao que “Extraordinário” conseguiu é louvável, mas a maior parte desses contos não repete o feito deste. Resulta que, quase sempre, no afã de extrair sensações do espectador, a obra os afasta do filme, tamanha ênfase em determinadas sequências que já são tocantes por si só, transformando-as em uma sucessão de cenas apelativas e forçadas. Po é uma dessas produções que enfrentam o desafio, assumindo seus riscos.

Po – apelido de Patrick – é um garoto autista que perdera a mãe, tendo que morar apenas com o pai (Christopher Gorham). O progenitor, repentinamente, se vê sozinho tendo que administrar seu trabalho, onde sofre pesada pressão para a conclusão de um projeto, e as necessidades específicas do filho. O cenário pouco convidativo vai mais além: na escola, Po sofre bullying e a direção faz vista grossa, culpabilizando o garoto e a suposta falta de cuidado do pai. Contudo, ainda não para por aí. O cerco no trabalho aperta e, obviamente, preferindo dar mais atenção ao filho, o pai é demitido. Ou seja, a história tem, a cada cena, um núcleo dramático de dar dó. E é isso que vai sendo explorado a cada sequência.

Po e seu mundo íntimo.

Como se não fossem suficiente tantos elementos apelativos à condição desta família, o diretor John Asher resolve colocar aquelas trilhas sonoras enfáticas de momentos tristes. Parece que, para ele, a carga dramática da história (e não é pouca!) não basta para causar empatia no espectador, caindo no velho erro das decisões apelativas para reforçar o que já está demasiadamente marcado. Isso, porém, não apaga o grande ponto alto da produção: a atuação de Julian Feder, na pele de Po, é marcante e o garoto passa credibilidade em cada um dos seus gestos e olhares perdidos.

De resto – e isso só pode ser considerado spoiler se você for por demais ingênuo – a obra segue o caminho esperado. É evidente que o núcleo familiar não permanecerá “incompleto”. É evidente que o paizão terá seus esforços recompensados. E é evidente que Po vai se sentir reconfortado uma outra vez. Não à toa, a nova orientadora de Po é uma mulher gata e solteira, com a qual o guri construirá uma imediata simpatia e relação, além de apontar para o pai o que ele deve fazer em relação a ela. A própria professora, na verdade, é de uma atitude ímpar em suas investidas para se relacionar com o progenitor. Fica claro o que advirá desse conjunto.

Relações.

Po, portanto, tenta colocar, a uma só vez, no cenário caótico de seus personagens tudo o que pode para chamar atenção de seu espectador. Se em um momento ou outro somos, de fato, tocados pela história, é porque, em sua essência, é um conto realmente sensível. Mas a opção por otimizar esses elementos faz com que a obra caia na armadilha supracitada, perdendo força narrativa com estereótipos e construções preguiçosas feitas com único intuito de sensibilizar uma história que é bonita e tocante por si só.

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