É a era das adaptações dos quadrinhos para o cinema! Desde que Stan Lee colocou seus heróis de roupa colante no topo da lista de blockbusters tudo mundo parece ter sacado que transformar gibi em filme dá grana. De vez em quando, claro, alguém pisa na bola (a DC Comics fez disso um hábito quase religioso!), e de vez em quando uma HQ que passou abaixo dos radares aparece como filme e surpreende. Nessa sexta feira, a Netflix, que parece estar obstinada a se tornar a maior produtora de audiovisual do planeta, lançou em sua plataforma streaming o filme Polar, adaptação da webcomic de mesmo nome publicada pelo espanhol Victor Santos em 2009.

No filme, Duncan Vizla (o sempre excelente Mads Mikkelsen) é um assassino profissional que se aposenta ao completar 50 anos e tenta encontrar algum sossego numa cabana nos cafundós congelados de Montana. Vizla trabalhou por décadas para uma grande empresa internacional de assassinos (??!!) e receberá cerca de oito milhões de dólares de aposentadoria, a não ser que morra sem deixar herdeiros. Nesse caso, a empresa se torna a única beneficiária do falecido e o grande chefão por trás da companhia tem a brilhante ideia de mandar os próprios assassinos da empresa assassinarem os aposentados e, assim, colocar mais uma grana no bolso. Tudo ia bem até que chega a vez de Vizla, “O Black Kaiser”. Não apenas ele não pretende descansar em paz tão facilmente, mas o senhor do crime comete um grande erro ao meter Camille, a vizinha do camarada (Vanessa Hudgens, bastante confortável numa atuação distante das cores neon de High School Musical), no meio da briga.

Desde o lançamento do trailer é difícil não comparar o filme com John Wick, e há, sim, vários elementos similares entre os dois, em especial a idéia de que existe todo um mundo paralelo super organizado onde assassinos recebem apoio logístico para realizarem seu trabalho, com direito a plano de pensão, assistência médica e aquisição da empresa de assassinos por outra empresa. Mas “O Profissional”, filme de 1994 que colocou Natalie Portman no mapa, me parece uma comparação mais próxima. A história de um assassino desapaixonado pela vida que encontra na figura da vizinha uma nova razão para viver e lutar e, quem sabe, se redimir por todo o mal que causou. O relacionamento estranho e silencioso entre Duncan Vizla e Camille rende momentos interessantes (e uma divertida referência a “Um Tira no Jardim de Infância”).

Mads Mikkelsen in Polar (2019)

Comparações à parte, o filme consegue criar uma atmosfera envolvente, com uma fartura de sangue e vísceras em cenas de porradaria da melhor qualidade e soluções criativas e inteligentes para vários pepinos em que Vizla se mete. Como um James Bond do Lado Negro da Força, ele parece estar sempre um passo à frente de seus adversários, convence como um assassino veterano e renomado e, é óbvio, leva uma boa dose de porrada porque heróis intocáveis não estão mais na moda.

Fei Ren in Polar (2019)

A estética, no entanto, me incomodou em certos momentos. Talvez para criar um correlato com os quadrinhos há vários personagens coadjuvantes caricatos demais e os figurinos e situações são, por vezes, exagerados e espalhafatosos, criando um contraste estranho e um tanto artificial com o tema e o mundo sombrio e monocromático de Duncan Vizla. De qualquer forma, é uma excelente pedida para os fãs de filme de brucutu, com cameo de Richard Dreyfuss e Lagertha (Katheryn Winnick) de Vikings, trilha sonora de Deadmau5 e mentira às pencas pra saciar nossa sede enquanto o próximo 007 não sai. O final, com um plot twist interessante (apesar de não tão surpreendente assim) nos acena inclusive com a possibilidade de continuações. Que bom!

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