Parece-me que a Netflix reproduz o cenário de produções cinematográficas mundo afora. O que sempre vimos no Cinema foi um sem-número de obras americanas, que necessitavam filtros e mais filtros para se tirar algo de bom; assim como as da Índia, que volta e meia apresenta algo de valor em meio a tanta coisa fraca. E o mesmo parece se repetir em outros países em relação aos originais do streaming. Se antes os lançamentos eram esperados dentro de uma pequeno acervo próprio, agora é muita coisa atirando para qualquer lado. No entanto, nadando contra a corrente, lembro-me de ter visto alguns títulos ingleses e a grande maioria tendo destaque naquilo que se propusera. É o caso do novo Por Trás de Seus Olhos.

Neste suspense psicológico que engole seu espectador a cada sequência, acompanhamos a história de um triângulo amoroso repleto de conflitos e flertes intensos com a insanidade. David (por Tom Bateman) é um psiquiatra escocês que mudara para a Inglaterra com sua linda mulher Adele (pela poderosa Eve Hewson), ávidos por “virar a página” de algum problema do passado. Apesar da tentativa da nova vida, o destino colocou no caminho do gentil psiquiatra a secretária Louise (pela carismática Simona Brown), por quem ele nutriu uma atração imediata. Mesmo sendo mãe solteira e usando a maior parte de seu tempo para cuidar prazerosamente de uma das crianças mais fofas do mundo, o pequeno Adam (em sensível atuação de Tyler Howitt), Louise consegue se envolver emocionalmente com seu “chefe” imediato. Ao mesmo tempo, por investidas insistentes – e sem saber de nada – Adele faz de tudo para se tornar amiga de sua própria algoz. Mas os segredos – que não são poucos – de cada um desse trio maluco vão sufocando cada qual e os levando para um abismo pessoal no qual há uma mescla tão forte que, em determinado momento, todos parecem ser o antagonista da narrativa.

Espelhos.

Erik Richter Strand faz uma direção muito precisa ao dosar sutilmente cada aspecto da narrativa. A apresentação dos personagens, recheados pelos flashbacks, que surgem em tempo certo e com detalhes suficientes, aliado aos conflitos que se intensificam nesse jogo psicológico promovido para cada um deles tornam a minissérie uma verdadeira teia que envolve o espectador nas intrigas tecidas por seus protagonistas. O fato de sabermos que Adele já fora internada em um hospital psiquiátrico, que David sempre esteve com ela (desde a juventude, quando um incêndio inexplicável engolira os endinheirados pais dela, deixando-a como única herdeira da fortuna) e o casamento de ambos ser a coisa mais desestruturada possível nos dá olhos inquisidores para cada um deles. A única que estava acima de qualquer suspeita, nesse meio caótico, era Louise: porém, em determinado momento, também temos nossos motivos para questionar algumas de suas decisões. “Nunca fiz besteira na vida, por que não poderia me arriscar dessa vez?”, indaga ela. Os elementos vão surgindo, pouco a pouco, mas em intensidade medida para nos fazer querer desvendar o que guarda a próxima cena, e a próxima, e a próxima.

Mantendo esta pegada do suspense psicológico, e tendo em seus recursos personagens muito bem construídos e com tons de profundidade, a nova criação de Steve Lightfoot vai construindo um castelo de cartas e apresentando-nos suas fragilidades (não narrativas, mas do emocional de seus protagonistas), deixando-nos preparados para quando ruir. Nós mesmos – e é impossível que não aconteça – fazemos o papel de tentar desvendar a trama, criando possibilidades para a conclusão. Quando esta chega – sem spoilers – imagino que alguns possam reclamar de uma possível forçada de barra. Nada ali me incomodou, de fato, mas entendo quem discorde da solução, apesar de ficar bem amarrada a posteriori. Mas, ainda que não tivesse ficado, eu não sou daqueles espectadores que diminui toda uma boa obra por conta de uma cena de conclusão. Ou que diminui anos e anos de temporadas por causa de um capítulo de conclusão (como muitos fizeram com “Lost”). Temos aqui dois fatos: a minissérie britânica é toda boa; e alguns podem se incomodar com os caminhos de sua conclusão. Não foi o que ocorreu comigo, porém.

Dor e prazer.

Há, portanto, muitos acertos em todos os aspectos da série. Desde o roteiro à sua realização, com a segurança dada pelo diretor; há personagens muito bem lapidados e bem atuados, conferindo mais beleza às sequências. E, sobretudo, uma narrativa que envolve cada minuto o seu espectador, colocando-o no centro de insanidades e abismos de loucura criados por personagens que parecem querer mergulhar em um oceano obscuro de prazer e dor. “Por Trás de Seus Olhos” é uma série envolvente, que realiza com louvor cada uma de suas propostas. Um suspense psicológico que desafia quem o assiste.

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