Em 2015, Sean Baker chamou a atenção do universo cinematográfico com “Tangerine“, filme totalmente rodado com câmeras de iPhones. Agora ele retorna com Projeto Flórida que, embora se apoiando em técnicas mais ortodoxas de filmagem, continua reverberando o espírito independente e ousado do diretor.

Uma máxima em Hollywood diz que, se você quer evitar problemas, não ponha animais nem crianças em seu filme. Baker quebra a regra (com sucesso). Centrado em Moonee (Brooklynn Prince), uma adorável criança peste de 6 anos, e seus amigos, a produção mostra o dia-a-dia em um motel barato de beira de estrada, nos arredores de Orlando, Flórida, e seus moradores, gente pobre, que faz malabarismo pra sobreviver. O contraste entre a proximidade da realidade desglamourizada daquelas pessoas e a ilusão colorido-capitalista dos parques da Disney tão próximos a eles faz de Projeto Flórida um momento de profunda consciência social nesta temporada.

Este é, aliás, o apogeu da narrativa: a sua capacidade de tocar em pontos nevrálgicos da sociedade sem apelar para uma hipersensibilização piegas. Além da primeira questão aparente, as disparidades sociais, o filme também toca em questões raciais, morais e de gênero. É bonita demais, por exemplo, a interessante reflexão sobre a relação mãe e filha permeada pela dupla miséria versus valores, na história de Moonee e sua disfuncional, mas completamente amorosa, mãe Halley (Bria Vinaite, em ótima performance).

O grande trunfo da produção está no seu elenco, é preciso dizer. Moonee e seus amigos trazem um frescor para o filme, que arranca sorrisos e emoções do espectador. Do lado adulto há que destacar o belíssimo trabalho do único ator veterano do Projeto: o excelente Willem Dafoe. No papel de Bobby, o gerente do lugar, que, ao mesmo tempo em que tem que cumprir suas obrigações, se preocupa com os moradores, Dafoe constrói uma atuação muito delicada, humana e organicamente integrada ao resto do elenco. Merecidíssima a sua indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante este ano.

Dos aspectos técnicos, a bela fotografia de Alexis Zabe é um delírio colorido para os olhos. A exploração cromática que suas lentes fazem dos espaços é coisa linda de se ver. Zabe, aliás, é o responsável por uma das fotografias mais lindas que meus olhos já viram em cinema, a obra de arte que é o seu trabalho em “Luz Silenciosa“, de 2007.

Projeto Flórida escorrega, porém, no tom do roteiro. Tentando, talvez, criar uma sensação muito colada à realidade, vida-vida, o filme acaba, em vários momentos, embarcando num ritmo documental que acaba não desenvolvendo os arcos das histórias das personagens. Essa sensação se potencializa com o uso excessivo de câmeras de mão. Isso acaba fazendo que o belo desfecho da produção deixe no espectador a impressão de que a história poderia ter sido melhor desenvolvida.

No mais, apesar desse pecado, Projeto Flórida  é o filme indie da temporada. Ele recupera a sensação de ar fresco que contribui para que o cinema se mantenha relevante durante todos esses anos. Ah, e como easter egg ainda sobra uma piadinha com os brazucas. Uma das cenas vai se encerrar com um “brasileiros adoram a Disney”.

 

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