“Nós somos a memória de quem lembramos”. A frase dita em um momento crucial de Quase Memória, longa de Ruy Guerra, baseado no best-seller de Carlos Heitor Cony, soa duplamente poderosa. Primeiro, porque reverbera, poética e resumidamente, toda a narrativa do longa. Depois, porque o espectador, ao se deparar com um filme dirigido por Ruy Guerra, é levado a viagens pela própria memória do cinema brasileiro através deste diretor que tanto fez pela sétima arte verde-amarela.

A premissa da produção traz toques de sci-fi e ousadia. Um jovem Carlos (Charles Fricks), na década de 60, se depara com sua versão velha e sendo devorada pela perda das memórias nos anos 90 (Tony Ramos). O nonsense ganha força quando eles recebem um pacote remetido pelo Pai (João Miguel), morto muitos anos antes. Na reconstrução das lembranças do Pai, criatura solar,  os dois Charles que são um só se veem reconstruindo a si próprio , à própria história e aos (des)limites  da memória e dos afetos. Tudo isso contando com a presença  de um “belíssimo” sapo-narrador (sim, sapo) dublado pela inconfundível voz do diretor.

A primeira grande qualidade do longa é o esmero com o qual foi produzido. Salta aos olhos o apuro que se estende em cada take. Visualmente, Guerra construiu algo estonteante, desde o cuidado do desenho de produção aos preciosismos da direção dos atores. O filme marca um avanço poderoso na produção nacional no que se refere a esses quesitos “de encher os olhos”, com uma menção especial à magnifica direção de arte de Marcus Figueiroa.

Mais que uma menção, é impossível escrever sobre Quase Memória sem falar da mais que linda fotografia de Pablo Baião. Recuperando a etimologia da própria palavra “fotografia” enquanto “escrita da luz”, Baião constrói um jogo de luz e sombra que amplia, em imagens, a dialética memória/esquecimento da diegese do longa. É fotografia de tirar o fôlego das retinas. A cena do balão, leitor Metafictions, entrará na história das cenas mais lindamentes iluminadas do cinema.

Da mesma maneira, o elenco, principalmente o trio principal, é um verdadeiro achado. Nas mãos luxuosas do maestro, cada um deles toca seu instrumento em primazia. A dupla Fricks/Ramos se afina tão harmoniosamente que é possível perceber que os atores respiram no mesmo tempo. Sendo seus personagens iterações de persona única, cada ator consegue imprimir um toque seu e, simultaneamente, recuperar o trabalho do outro, quer seja na expressão corporal, quer seja na intimidade cênica que se deixa entrever. No papel do Pai, João Miguel deixa bem à mostra o porquê de ser um ator tão celebrado em nossos cinema: cada uma de suas cenas ecoa no espectador de modo extremamente vigoroso.

Esse Quase Memória  só parece sofrer de uma leve amnésia no que diz respeito às decisões tomadas na delimitação das fronteiras cinematográficas da obra. Ao longo da exibição, o apoio excessivo talvez na fonte literária do roteiro deixava sempre a sensação de “teatro filmado”. Essa sensação se potencializava com a hipertrabalhada coreografia das cenas, que me fizeram várias vezes pensar frases como “nossa, isso no teatro ia ser perfeito”. Algumas cenas, inclusive, se apoiavam em interpretações que deixavam muito tênues as fronteiras palco/tela. Infelizmente, nesses momentos ficava uma sensação não de hibridização, mas de trombada de linguagens.

Mas, no fim, esse pecado é perdoado pela beleza do conjunto. E pela capacidade – essa, sim, totalmente cinematográfica – que Quase Memória tem de nos levar pelas imagens projetadas na sala e aquelas que se projetam dentro da gente e que formam, nas palavras de Cony, essa “enseada escura onde a memória é âncora e luz”.

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