A Netflix tem se notabilizado por investir de forma globalizada em seu conteúdo original, mesmo quando a obra não é exatamente uma produção dela, mas apenas algo que ela distribui exclusivamente. Já tivemos, por exemplo, o curta-documental georgiano “O Mercador“(resenhado aqui), o longa italiano “Perdoai as Nossas Dívidas” (resenhado aqui) e agora esta que é a terceira (e a melhor) produção original Netflix vinda da Índia, depois de “Amor por Metro Quadrado” e “Contando os Segundos” (resenhados aqui e aqui).

Em Quatro Histórias de Desejo temos exatamente o que nos promete o título. Quatro curtas que, salvo por todos se passarem em Mumbai, nada têm a ver com o outro, mas que ao mesmo tempo dialogam entre si no que se refere aos temas enfrentados. Em todos, vemos o protagonismo de mulheres em uma cultura na qual as mulheres não têm qualquer protagonismo, existindo em geral meramente como acessórios ou coadjuvantes de seus maridos, pais e irmãos, mais ou menos como funciona aqui, mas de forma muito mais agressiva, escancarada e institucional.

Na 1a e menos inspirada de todas, temos uma mulher (clone meio mal-feito de Juliana Paes) tiranizada por seus volúveis ideais de relacionamento infernizando a vida de um moleque. Na 2a, uma empregada doméstica que se entrega aos seus desejos é lembrada com uma sutil crueldade de qual é o seu lugar na sociedade. Na 3a história, um casal de meia-idade está em crise e conta com a ajuda de um amigo em comum para superá-la. E na última, a belíssima Kiara Advani quer algo mais de seu casamento com um marido carinhoso, apaixonado, mas ligeirinho que só ele.

Em todos temos mulheres guiadas pelo desejo, um sentimento que elas histórica e religiosamente são proibidas de ter, valendo este microcosmo (micro, mas com gente pra caralho) indiano como uma belíssima analogia hiperbólica da nossa situação no ocidente quanto à condição feminina. Isto quer dizer que, embora as coisas que aconteçam em um país com casamentos arranjados não possam evidentemente ser analisadas à ferro e fogo se comparadas com o que ocorre aqui, os diretores de cada uma das obras fazem com que extrapolá-las para a realidade ocidental se torne muito fácil e este é um dos grandes acertos dos curtas.

É curioso notar também que aqui não estamos falando da Índia miserável de “Quem Quer Ser um Milionário?” ou “Lion”, mas de uma classe média/alta, que frequenta restaurantes, tem carro e casa própria, ou seja, está muito além de apenas sobreviver como costumam ser os casos dos filmes que chegam ao ocidente sobre qualquer coisa naquele país, de modo que os anseios aqui apresentados são os mesmos da classe média no mundo todo. Não se batalha por um prato de comida, mas por respeito de seus iguais, por posição, por amor e por prazer. E é refrescante que assim seja e que também seja possível fazer um filme indiano no qual há uma cena de sexo (apesar de não mostrar peitinho nem pintinho) sem que ninguém cante ou dance em momento algum. E não há, de verdade, qualquer cantoria ou dança no filme todo, a não ser que você conte como uma “dança” um determinado e hilário evento da última história.

No geral, Quatro Histórias de Desejo – sendo comédias a 1a e a 4a e as duas do meio dramas – segue um padrão estético bem agradável e simples, permitindo que o roteiro, a direção e os atores se sobressaiam (com destaque absoluto para o trio da 3a e melhor história, em especial Manisha Koirala), em um tema que é atual não apenas em um país dividido em castas que, até onde meu parco conhecimento permite vislumbrar, ainda sequer começou a engatinhar quanto a qualquer questão referente a igualdade (de gênero, religiosa, étnica…), mas também para a sociedade judaico-cristã ocidental que só recentemente começou a perceber que a mulher pode (e deve) gozar também.

“Que mal há que elas busquem o prazer?”, pergunta Quatro Histórias de Desejo em cada um de seus frames por seus quatro cineastas e as respostas, sejam aqueles que doam, sejam aquelas que libertam, são pertinentes, atuais e, honestamente, do interesse de todos saber.

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