Rebecca, romance de Daphne Du Maurier lançado em 1938, se tornou inesquecível. Primeiro por ter servido de fonte para o primeiro filme da fase hollywoodiana de Hitchcock, lançado em 1940, e sua única produção a ganhar um Oscar de melhor filme. Segundo, o livro é acusado de ser um plágio do romance A Sucessora, da brasileira Carolina Nabuco, lançado quatro anos antes doa obra de Du Maurier. Mas, graças ao talento de Hitchcock e a atuações magistrais de Sir Lawrence Olivier e Joan Fontaine, foi a versão cinematográfica que se consagrou como um clássico.

Pelas mãos de  Ben Wheatley a Netflix revisita Rebecca e nos traz uma versão 2020 da história da jovem que, após um encontro tórrido em Monte Carlo, vive um conto de Cinderella e se casa com o rico e lindo recém-viúvo Maxim de Winter (Armie Hammer). Alçada agora à condição de Sra. de Winter (Lily James), ela viverá em Manderlay, a imponente casa senhorial do marido, na costa da Inglaterra. Lá, a recém-casada terá de lidar com as lembranças e as memórias que ninguém parece fazer questão de deixar para trás da inesquecível falecida Sra. de Winter, a Rebecca do título. Principalmente a Sra. Danvers (Kristin Scott Thomas), a  sombria governanta da casa que, obcecada pela antiga patroa, não vai tornar mais fácil a vida da sucessora.

Embora fosse fácil cair na tentação de se tecer comparações com a obra-prima de Hitchcock, este crítico controlou seus impulsos e, ajudado principalmente por uma memória que já não lembra dos detalhes da versão de 1940 e por ter se recusado a revê-lo antes de assistir a esta nova encarnação, encarou os 121 minutos de exibição com o benefício do frescor de olhar coisa nova. E a conclusão foi que, mesmo vista de forma totalmente autônoma (como ele deve ser visto), a produção de Wheatley não funciona muito bem.

O primeiro e maior entrave em Rebecca é a sua total e absoluta falta de sutileza. O filme patina por uma sucessão de escolhas totalmente exageradas e explícitas, dos aspectos técnicos às atuações. Nada sussurra, nada envolve. Tudo berra. A fotografia, por exemplo, aposta em uma grandiosidade tão over que, em vez de imprimir sofisticação dos anos 1940 em que a história ocorre, só consegue imprimir breguice.

O roteiro também não ajuda. Em nenhum momento a palavra soa “naturalizada” o suficiente para formar uma narrativa realista e nem “estilizada” o suficiente para ser lida como pastiche. Cada diálogo parece uma roupa que não cai bem na pessoa e que você não consegue definir se está mal ajambrada por ser larga ou apertada demais.

Por falar em roupas, figurino e direção de arte não conseguem se destacar, coisa difícil de acontecer em produções de época, ainda mais quando nitidamente dá para perceber que se tinha um orçamento bem robusto. Nem as intervenções musicais com obras de décadas posteriores à história consegue causar um bom efeito.

Trocando em miúdos, fica muito nítido que Rebecca: A Mulher Inesquecível sofre os efeitos de uma direção equivocada. Em nenhum momento Ben Wheatley consegue exibir na tela uma visão clara do filme que tinha em mente. Isso respinga em todos os aspectos da produção, mas os atores acabam saindo mais manchados, por mais expostos. Lily James não segura desta vez o protagonismo (ela que parece só fazer protagonistas a carreira toda) e sua Sra. de Winter não convence, principalmente na virada abrupta que o roteiro resolve tomar no terceiro ato. Armie Hammer também não consegue exibir tantas camadas em seu Maxim, parecendo claramente deslocado em certas cenas. Kristin Scott Thomas se sai melhor no conjunto, mas não devido a seu inegável e conhecido talento cênico, mas por sua personagem já ter uma concepção exagerada no roteiro, quase caricata, o que, involuntariamente, a fez se mesclar melhor no todo.

No fim, salvam-se um ou outro uso de artifícios melodramáticos e algumas locações de encher os olhos, além de uma diversão que, em certos momentos, deriva de uma breguice fofa. Vale, também, como aqueles filmes que o espectador se entretém enquanto faz outra coisa (como comer ostras, uma das boas ideias que o filme me deu). Rebecca pode ter sido inesquecível. Já a da Netflix não dá para garantir se será.

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