A França é superestimada. Berço de vários importantíssimos filósofos, coloque-os ao lado dos alemães e verá que não são os pensadores mais fantásticos do Universo. Trazem para si a origem do Cinema com o invento dos irmãos Lumière, mas há quem diga que o início está mesmo na criação dos irmãos alemães Skladanowsky. Até mesmo a revolução deles, tida pelos historiadores ocidentais como o marco para o começo da História Contemporânea, há quem defenda que não foi essa transformação toda (visto que se inicia com o esvaziamento do poder do rei absolutista Luís XVI e se conclui com a ascensão ao poder de um Imperador centralizador, Napoleão – e até as grandes conquistas populares em seu desenvolvimento duraram não mais que um par de anos). Aquele enorme museu, o mais conhecido do mundo, serve para abrigar obras que não vêm de lá. Talvez a França seja, de fato, superestimada. Mas se tem algo que a França criou e que não pode ser jamais superestimado é Éric Cantona. Um futebolista que se tornou lenda no Manchester United da Inglaterra, capaz de feitos inacreditáveis, de passes a gols estonteantes, incluindo, ainda, uma voadora cinematográfica, em plena partida, no meio dos cornos de um racistinha que entoava cânticos deploráveis na arquibancada. No livro biografia do clube, o autor traz todos os jogadores que já passaram pelo United, identificando suas posições em campo e nacionalidade. Quando trouxe o nome do dito-cujo, ali estava escrito: Éric Cantona, França, “deus” (no lugar de “atacante”). Mas antes que você se assegure de que clicou no link certo, eu te explico: Éric Cantona, futebolista lendário aposentado e agora ator, é o protagonista da nova série francesa da Netflix: Recursos Desumanos.

Alain Delambre (pelo fantástico e lendário futebolista e agora excelente ator) é um pai de família na casa dos 50 e poucos anos. Tendo trabalhado quase sua vida inteira como gerente de Recursos Humanos, o homem velho perdera espaço em um França que engole tantos seus antigos filhos quanto seus imigrantes (outrora colonizados e exterminados por ela própria). Suas duas filhas têm uma vida, emprego e suas casas. Ele vive com a mulher de sempre, Nicole (pela boa Suzanne Clément) em sua casa prestes a ser quitada, mas com um débito sem ter como ser pago. As paredes mostram infiltrações, o teto pinga, azulejos faltam. A casa dos Delambre é a ilustração da vida de seu quase proprietário: excelente e muito bem construído local, porém em decadência. Tendo que pagar suas contas, ele trabalha em empregos informais e de nenhuma especialização. E mesmo nele é extremamente humilhado por seu chefe. Tudo, porém, parece mudar quando uma oferta de emprego, a partir de uma seleção em sua área chega a ele. Apesar de se mostrar incapaz durante o processo, ele chega até a etapa definitiva com apenas um outro candidato. É aí que ele descobre que foi apenas um títere da grande empresa, que só o estava usando como manobra para uma atividade interna.

O homem batido, que seguira o Pacto Social com afinco, o Sonho Americano, o Sonho Europeu, o Sonho Ocidental: estude, trabalhe, case, tenha filhos, compre sua propriedade, exerça seus direitos. Tudo o que os Iluministas franceses defendiam lá atrás, há um pouco mais de um par de séculos. Esse fora o resumo da vida de Alain Delambre. Mas agora humilhado, levado ao chão, consumido por uma raiva interna que não mais conseguia segurar, ele se volta contra o sistema que o engolira. Sabedor de que fora manipulado até ali em uma seleção de emprego mentirosa, nosso herói e protagonista resolve contra-atacar a seu modo: e isso literalmente. Enquanto todos pensavam que ele havia realizado uma atitude terrorista de subjugar grandes executivos durante um momento de insanidade, Alain tinha um plano engenhoso e gigantesco por trás de suas ações. Como um mágico que chama atenção para um local diferente de onde acontecerá a mágica, assim Alain vai jogando com aqueles que tentaram utilizá-lo de peão em um jogo de xadrez cínico e cruel. Disposto a recuperar sua família, sua propriedade e sua dignidade, Alain Delambre decide ir ao fundo do poço de onde, acreditava, ressurgiria como Fênix.

O homem batido.

Cada um dos 6 episódios da série envolve o espectador de forma direta e sem abrir espaço para um fôlego qualquer. Como se dividindo a história dele em blocos: a queda, a reação, o fundo do poço, o ressurgimento e a tentativa de redenção, temos um Alain Delambre completamente diferente nos ditando cada passo seu nessa narrativa intrigante e que, acima de qualquer coisa, dá oportunidade para conhecer o íntimo de um homem que não se permitia a paz, já que não se sentia digno de dar um passo a frente. O desemprego não é nada de mais na boca de um empregado, mas só quem está nessa situação sabe os limites a que são levados o indivíduo privado de todo e qualquer direito, gritava o protagonista. A liberdade deixa de ser liberdade se nada se pode fazer; a segurança inexiste, a sensação é de desamparo; a igualdade é uma ilusão, já que ele não tem qualquer tipo de proteção da lei; e a propriedade privada segue por um triz na corda bamba de quem não vê a luz no fundo do túnel. Os direitos essenciais defendidos pelos conterrâneos iluministas parecem passar longe do atual momento de Alain Delambre. E é quando não tem mais nada a perder que ele se reconstrói.

Destaque principal para o homem responsável pela longa introdução da presente resenha: Éric Cantona mostra aqui que é uma pessoa fantástica. Um ator excelente. Mas não para um futebolista aposentado. Ele está de frente para grandes nomes, inclusive alguns conhecidos nossos da própria Netflix (como Suzanne Clément de “O Bosque” e Adama Niane de “Estranhos em Casa“, este lançado outro dia desses aí), e em nenhum momento deixa a desejar. Muito mais do que isso, ele incorpora Alain Delambre em tudo o que este cidadão representa: suas feições e modo de se portar de um humilhado, de alguém vencido. E depois de um indivíduo consumido por raiva e vontade pela destruição. Cantona passeia por diferentes lugares ao longo dessa jornada de quase 6 horas, em uma atuação marcante. Se por um lado, ele teve mais tempo de tela do que todos os outros, tendo, portanto, mais chance de mostrar trabalho; por outro, ele também, pelo mesmo motivo, tinha mais chances de errar. Só que ele não erra. A força da narrativa em muito encontra nele sua representação ideal, entregando-nos um trabalho excelente. Tão belo quanto seus feitos em campo. De resto, o elenco também é muito bem escolhido para compor a história, contada com mão firme e sem excessos e sem ser demasiado francês (o que é muito bom quando uma obra de lá consegue isso).

Levado ao seu extremo.

Baseada em uma história real, a história fala por si só. Mais do que a curiosidade que essa informação (dada logo de cara) pode trazer, a narrativa própria da obra é responsável pela grande conquista dela: definitivamente marcante e envolvente ao espectador. Sabendo dosar momentos de tensão e de drama, sendo profundo sem ser nada pedante (o que é muito incomum aos franceses), Recursos Desumanos deve ser visto, apreciado e analisado. Estamos em momentos de crise (na verdade, quando não estamos?!) e uma obra que trata de maneira extremamente humana sobre assuntos delicados como este é sempre bem-vinda. Mas, independente do momento que atravessamos, esta série se mostra atemporal, porque fala firme sobre a condição essencial do ser humano.

Já é outra pessoa.

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