“Somos todos selvagens” são os dizeres em um placa atada a um aborígene que dança ao ritmo do vento gelado, a empurrá-lo de um lado para outro, enquanto é sustentado sem vida por um grossa corda. E essa é a tônica do novo filme de Alejandro González Iñárritu: não é um conto sobre homem versus a natureza selvagem; ou sobre o homem civilizado versus o homem selvagem. Não na minha leitura, pelo menos. É uma história sobre como o instinto primário de todos nós é tão animal que nos faz a imagem e semelhança dos demais seres deste Reino.
Uma sinopse comum desta obra poderia descrever que se trata de um desbravador, Hugh Glass (em mais uma interpretação excelente de Leonardo DiCaprio), e sua busca por vingança contra John Fitzgerald (em um trabalho não menos brilhante de Tom Hardy), que o teria abandonado moribundo naquele solo inóspito, tirando suas chances de sobrevivência e a única coisa a qual dava valor: seu próprio filho, esfaqueado sorrateiramente por John, seu companheiro de expedição. Pode parecer que essa história já foi vista um sem-número de vezes em tantos outros títulos. E, na realidade, imagino que todas com as quais temos contato narram histórias já contadas. Mas o que faz nos emocionar ou nos surpreender, mesmo assim? Acredito que seja, dentre outros pontos, a forma como ela é contada. E aqui entra a assinatura de Iñárritu sustentada pela genialidade sempre presente de Emmanuel Lubezki.

A poesia das imagens nos faz mergulhar e sentir intensamente as transformações daqueles personagens. Todos começam iguais. São desbravadores tentando ganhar dinheiro com o comércio de peles. Arriscam suas vidas contra os aborígenes ameaçadores. São sobreviventes, no entanto. Precisam correr o risco. “Life? What life? I just live”, diz Fitzgerald em um de seus diálogos muito bem escritos. E, assim, todos seguem em sua luta diária, contra os índios, contra a natureza e contra si próprios. Em determinada passagem, Glass é surpreendido por um Urso que o ataca violentamente. Jogado de um lado para o outro – como o aborígene a dançar uma amarga valsa com seu par gelado e invisível como a morte – Hugh, diferente do índio, consegue guardar uma faísca de vida. Ao ser encontrado por seus companheiros, está desacordado. Ele apenas vive.
Abandonado, posteriormente, e solitário, precisa lutar para conseguir sua sobrevivência.

Nesse momento, sua transformação se inicia. Hugh Glass cada vez mais passa a se parecer com o Urso que quase tirou sua vida. Ele não mais consegue falar, apenas urra, como os animais daquela região. Protege-se do frio com uma camada grossa e peluda de cor semelhante a de seu algoz. Alimenta-se de outros animais, comendo sua carne crua. Esconde-se na natureza, usando-a como abrigo. Dorme dentro da carcaça de um cavalo, de onde sai como um recém-nascido. É parido por um animal selvagem. Não é mais Hugh Glass. É apenas um selvagem. Mas com uma condição humana aparente – e uma tão somente: a vontade de vingança. E vingança é histórica, assim como o homem é um ser histórico, pois compreende o passado, o presente e vislumbra o futuro; já o animal vive cada instante como se não houvesse passado ou futuro, saltitando de lá para cá, comendo, descansando, digerindo, para, então, repetir tudo uma outra vez – como nos conta Nietzsche em seu Segunda Consideração Intempestiva. Glass não conseguia viver aquele instante como se não houvesse mais nada. Precisava satisfazer a sua vontade, respeitar sua condição de ser histórico. Único elemento que o diferenciava dos demais animais.

John Fitzgerald também carregava marcas em seu corpo. Era metade careca por ter sido escalpelado por homens-índios e não outro animal selvagem. Sua atitude de abandonar o companheiro de expedição e esfaquear o filho dele não deve ser vista de maneira simplória. Não se trata de um Fitzgerald imoral, porém amoral. Como todo animal é. Era um sobrevivente. Como todo animal também é. E, como nos obriga o instinto, precisamos fazer o necessário para preservar nossa própria vida. Assim como o homem sobre o qual Fitzgerald conta um episódio: “‘I found god’ he said. Turns out god was a squirrel”; era a necessidade de sobrevivência; essa era a religião de cada um ali “I found religion. I found god”. John não era um homem; já era o John-Selvagem. Assim como Glass quando se transforma. Era ele, mas não um “Ele-Homem”, e sim um “Ele-Urso”. O encontro entre os dois seres é explosivo, intenso e bestial. Cada qual lutando pela própria vida. Caçadores. Predadores. Um prevalecerá. O Urso recém-nascido, ainda forte e jovial. Ele consegue sua vingança. Seu único elemento humano.
Iñárritu conclui o filme com um quadro que chega a arrepiar o espectador, e que traz em si todo o significado desta obra visceral. O personagem quebra a quarta parede. Hugh Glass, não mais homem, e apenas animal agora, olha fundo em nossos olhos – espectadores de toda a sua jornada de transformação – e seu olhar nos diz uma coisa e uma tão somente: “somos todos selvagens”.

Sugestões para você: