“É muito fácil falar de coisas tão belas
De frente pro mar mas de costas pra favela
De lá de cima o que se vê é um enorme mar de sangue
Chacinas brutais, uma porrada de gangue […]

Aqui a lei do silêncio fala mais alto
Te calam por bem ou vai pro mato
Mas de repente invadem a minha área, todos fardados
Eu tô ficando loco, ou tem alguma coisa errada?”

(Zerovinteum, Planet Hemp)

O ano era 1998 e o mês era maio. Um casal decide deixar sua realidade em Recife em busca de uma vida melhor para suas duas filhas, no Rio de Janeiro. Vêm seguindo parte da família do pai, que já havia chegado antes. No início, sem renda e com pouco dinheiro poupado, moram de favor na casa antiga de conhecidos, em um dos acessos ao Morro do Turano, na zona Norte da cidade. Era o início de uma temporada de convívio diário com a realidade de uma grande favela, desde presenciar traficantes fortemente armados circulando livremente em moto-táxis até se surpreender com operações policiais inesperadas, que atrasavam a ida ou volta das filhas da escola, deixavam rastros de sangue atrás de si e aterrorizavam os moradores tanto do asfalto quanto da comunidade. E seriam alguns anos de pouco sossego para a mãe das meninas, sempre aflita ao deixar suas filhas sozinhas em casa enquanto saía pra trabalhar.

A verdade inconveniente que Renato Martins nos traz em Relatos do Front é que mais de 20 anos e vários governos depois – agora, com direito a intervenção federal e uso das forças militares! –  o cotidiano nas favelas e áreas de risco do Rio de Janeiro não se alterou, pelo contrário, continua estagnado num eterno ciclo de insegurança, a única diferença é o crescimento constante do número de vítimas – cujos nomes saem nos jornais todos os dias, só para serem esquecidos no dia seguinte. Por meio de testemunhos de parentes dessas vítimas e de entrevistas com cientistas sociais e políticos, antropólogos e especialistas em segurança pública, somos obrigados a nos conscientizar, por mais de 90 minutos, do perigo iminente que nos cerca e para o qual aprendemos a fechar os olhos para não surtar toda vez que saímos de casa.

Eu só posso definir a experiência de assistir a esse documentário como angustiante, ao nível de me fazer conferir o relógio para saber se a agonia de presenciar tantos relatos de dor, impunidade, crueldade, corrupção do estado, incompetência dos governos e falência total das instituições estava perto de acabar. O recurso da “câmera como testemunha”, que mostra os eventos do ponto de vista dos sujeitos envolvidos, também é usado aqui para nos levar pra dentro dos conflitos, dando-nos apenas uma pequena amostra do terror enfrentado por quem presencia a violência. Imagens gravadas por celulares também integram os “relatos do front” na guerra diária das forças do Estado – PM e Polícia Civil – contra os bandos armados dos pontos de venda de drogas.

Inteligentemente construído para questionar os discursos midiáticos e do senso comum sobre o estado de abandono da segurança pública na Cidade Maravilhosa, o documentário se debruça sobre questões profundas, indo além da lógica simplista de que existe um “estado de guerra” nas metrópoles do país, historicizando a construção de uma mentalidade repressiva na sociedade brasileira desde os tempos da colonização. Relatos do Front é absolutamente bem-sucedido ao fazer o resgate do discurso autoritário no poder político, presente na história da cidade desde seus primórdios – insira aqui os relatos da repressão policial aos tambores negros no pós-abolição ou a repressão aos favelados do centro marginal no início do século XX –  e presente portanto em cada decisão tomada pelas administrações dos governadores e prefeitos, ao longo de sua história.

No mar de depoimentos que nos fazem refletir sobre a situação frágil em que nos encontramos, destaco duas falas: a de um policial que nos traz o ponto de vista de quem trabalha dentro e para o sistema, vítima do processo de adoecimento mental que sua rotina de trabalho impõe, destruindo aos poucos qualquer sensibilidade e humanidade, embrutecendo seu espírito, alimentado pelo ódio crescente ao “marginal”, e a fala de um ex-traficante, que aparece sem rosto para preservar sua identidade, que faz com que contemplemos o processo de formação da identidade do favelado, desde criança consciente da precariedade de sua condição e da exclusão social e econômica inerente a si, responsáveis, na maior parte das vezes, por aproximar esses sujeitos da lógica sedutora do tráfico e do mundo do crime.

E é esse o aspecto mais importante do olhar de Renato Martins ao nos mostrar que no fim das contas, no saldo de mortos e vidas destruídas, não existe vencedor: perdem todos. Perde o “gado” humano militarizado, mal treinado e mal pago, construído pelo discurso do ódio ao inimigo do morro, que sobe a comunidade pensando que é “matar ou morrer”, perdem os “meninos”, pobres, negros em sua maioria, corrompidos pelo sistema que lhes nega escola de qualidade mas lhe proporciona a arma e o “status” de donos do morro, perdem os moradores das favelas, englobados no território de “marginais”, cuja vida importa menos na geografia da desigualdade social carioca, que elege a favela como zona franca da matança e brutalidade. Perdem as famílias dos assassinados, em ambos os lados, e perdemos todos nós, reféns do medo diário da violência.

Depois de alguns anos de trabalho duro, foi possível àquela família se mudar pra longe do Turano e, graças ao esforço absurdo daquela mãe, suas filhas conseguiram bolsas de estudo em escolas particulares e anos mais tarde passaram de primeira no vestibular, seguindo carreiras e sonhos apenas possíveis pelo ato de resistência da realidade que se impôs inicialmente. Na família do pai, a sorte não foi a mesma, levando-o a perder um irmão e um sobrinho para o tráfico e consequentemente para a morte. Relatos do Front nos mostra que a diferença entre as histórias dessa família está justamente nas oportunidades que a sociedade oferece aos seus membros, de emprego digno e de qualidade, de formação educacional e acesso à cultura, de moradia segura, e não na lógica simplista do “bandido bom é bandido morto”. Por ser uma das filhas da família em questão é que considero este documentário obrigatório de ser visto por qualquer carioca.

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