Em 2002 eu saí de uma sessão de cinema absolutamente embasbacado pelo sensacional “Domingo Sangrento”, um filme que ficou mais conhecido por retratar os eventos descritos na canção Sunday, Bloody Sunday do U2, mas que, para mim e para todos que o assistiram, revelou ao mundo um novo cineasta, que conseguiu, de forma autoral, realizar um filme poderoso, daqueles que exigem ser vistos. E isso vem sendo a tônica de praticamente toda a carreira de Paul Greengrass, seja nos muitos filmes de ação da franquia Bourne que ele mesmo criou, seja nos absolutamente espetaculares “Voo United 93” e “Capitão Philips”. O que quero dizer é que Greengrass sempre entrega produções necessárias, com senso de urgência e de relevância social premente, o que se mostra de forma muito evidente até mesmo em sua obra anterior a essa, o bom “22 de Julho“. Agora guardem esse parágrafo.

Reeditando a parceria de sucesso de “Capitão Phillips”, Tom Hanks volta a ser dirigido por Greengrass, curiosamente mais uma vez na pele de um capitão. Aqui Hanks interpreta Jefferson Kidd, um veterano que lutou pelo sul na Guerra Civil americana e hoje, passado conflito e seus horrores, ganha a vida indo de cidadezinha em cidadezinha de um Texas ainda largamente selvagem lendo jornal em voz alta para uma plateia com os tais relatos do mundo do título. É uma profissão que eu nem sabia que existia, mas que faz todo sentido que tenha existido.

Em uma dessas viagens, Kidd se depara com um negro assassinado impiedosamente pelo simples fato de ser negro. Ele estava escoltando a menina Johanna (Helena Zengel) de volta à sua família na cidade de Castroville. Johana é branca, loira e dos olhos azuis, ela fora raptada pela tribo Kiowa e ficara anos com eles, sendo naquele momento efetivamente uma índia que vai precisar se readaptar à sociedade “civilizada”. O capitão então, após relutar só um pouquinho, toma para si a missão de levar a criança de volta a sua família, que no caso são só seus tios porque seus pais foram brutalmente massacrados pelos índios.

Pois bem, qualquer um com alguma experiência cinematográfica lê essa sinopse e já sabe exatamente o que vai acontecer, certo? Velho durão cuidando de jovem arredia/rebelde em uma viagem que nenhum dos dois quer fazer, mas que vai ensinar a ambos valiosas lições sobre amor, compaixão, empatia e tolerância. O final já está escrito nas estrelas, mas, como eu disse acima, este é um filme de Paul Greengrass, o que me fez esperar até que os créditos terminassem de rolar para sacramentar o meu desapontamento.

Ao contrário de basicamente toda a filmografia do diretor, Relatos do Mundo é uma obra água com açúcar – daquelas que poderiam passar facilmente na Sessão da Tarde – e não traz absolutamente nada de urgente. É uma história que já foi contada inúmeras vezes e de várias formas diferentes. Aqui ela se torna tão somente um filme correto, para ser visto e esquecido pouco tempo depois de tão genérico. As coisas acontecem exatamente como a gente acha que vão acontecer, à exceção de alguns poucos comentários sociais atemporais que Greengrass consegue inserir no roteiro (que é de sua autoria na adaptação do livro de Paulette Jiles) tomando como base o direito à informação como algo fundamental para a construção do ser humano enquanto cidadão e membro da sociedade. Mas até isso chega a ser um pouco irritante porque esse potencial é explorado com a mesma profundidade de um pires.

De toda forma, esta ainda é uma produção que conta com um diretor competentíssimo no seu ofício e com aquele que talvez seja o maior astro de Hollywood dos últimos 30 anos. Seria um trabalho realmente incrível se pessoas com esse tipo de credencial conseguissem fazer um filme horrível. Logo, mesmo sendo genérico e, ao contrário de todo o corpo da obra do diretor, desnecessário, Relatos do Mundo vai muito bem tecnicamente, com uma fotografia belíssima, atuações sempre corretas e diálogos interessantes, ainda que, seguindo no quesito técnico, haja uma cena de uma pedra rolando feita com efeitos especiais que é uma coisa dantesca e totalmente inaceitável numa produção desse nível.

Temos aqui portanto um filme correto, mas que decepciona tão somente por causa da expectativa criada pelos nomes envolvidos. Greengrass, como disse, costuma fazer filmes que gritam na sua cara que precisam ser assistidos, que vêm para incomodar, provocar reflexão e/ou te deixar sem fôlego durante toda a exibição. Eu, por exemplo, não fiz uma crítica das mais positivas quanto à 22 de Julho, seu filme anterior, mas aquele é um filme que foi inegavelmente feito por Greengrass. Por sua vez, Relatos do Mundo não faz absolutamente nada disso, ficando a impressão de que poderia ter sido dirigido por qualquer pessoa com alguma competência. É um bom filme, mas que carece de originalidade e da marca de um cineasta que tão frequentemente traz essas duas coisas às suas obras.

(from left) Johanna Leonberger (Helena Zengel) and Captain Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks) in News of the World, co-written and directed by Paul Greengrass.

 

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