Desde que decidi fazer Cinema, sempre me perguntei qual seria o prazo de validade de minhas obras. No início, inclusive, eu queria apenas fazer séries (X-Files foi quem me fez ver o que queria da vida), pois achava que um longa-metragem logo se esgotava. Eram cerca de dois anos de envolvimento para uma passagem muito rápida pelos cinemas. Isso me dava calafrios. Hoje, olho para trás e vejo que muitos filmes que assistimos, de poucos anos de idade, inclusive, não são mais tão mencionados, ou até parecem ter sido esquecidos. Alguns atravessam a História, como se preservados por uma Arca do Cinema, mas outros não permanecem, muito embora a qualidade seja excelente. Por isso, constantemente penso em uma forma de manter a vida útil de uma obra cinematográfica. Assim, iniciamos este quadro “Assista!”, no qual indicamos um filme (de qualquer época) para que seja relembrado.

Dentro de um universo gigantesco de possibilidades, optei por um recente, de 2014, até mesmo indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (tendo perdido para o, na minha opinião, fraco Ida). Um dos principais motivos é que este título é muito rico de diversas formas. Primeiro: é argentino – e o cinema desse país é impecável; segundo: é um longa que costura alguns curtas/médias-metragens – assim, ele contribui para o consumo de curtas (sobre este formato, ainda faremos um quadro aqui no site); terceiro: fala sobre temas dos mais variados, de maneira sensível e profunda, sem apelar ou tentar ser deliberadamente desagradável para criar sensações. As sensações são, sim, criadas, mas pela habilidade do diretor; quarto: cada episódio carrega um gênero diferente entre si, mas com um tom semelhante sempre presente. Portanto, segue a indicação da semana: Relatos Selvagens, de Damián Szifron.

Um homem no limite

Sempre que vou ao Cinema para assistir a uma produção argentina, a expectativa é a maior possível. A razão é um tanto quanto simples. Ter no histórico do país títulos como O Segredo de Seus Olhos, O Filho da Noiva, Conversando com Mamãe, Valentin, Querida vou comprar cigarros e já volto, Nove Rainhas, dentre outros, significa que uma nova obra pode ser tão boa quanto as citadas. E, nessa situação, quando eu digo “boa” quero, na verdade, dizer “obra-prima”.

Parece-me bastante comum que a Argentina produza, constantemente, grandes filmes. E cabe um questionamento bastante significativo: mesmo com a grande crise econômica, os lançamentos continuam impecáveis. Em comparação, o Brasil, com recente boom econômico (antes da atual crise), se divide, basicamente, em dois grupos de produções: aquelas quase independentes, geralmente com temas sujos e/ou violentos; ou novelas/zorra total de 90 minutos (o que é deprimente, vale dizer). Certamente – e isso nem é uma questão para nós – criatividade e maturidade nada tem a ver com dinheiro. Vide Hollywood, que passa por sincera crise criativa apesar de dispor de bilhões de dólares para suas realizações.  A despeito disso, esta questão permanecerá, já que são países vizinhos, que passaram, historicamente, por situações semelhantes (muito embora tenham seguido caminhos diferentes). Qual é o segredo argentino para que seus filmes sejam infinitamente tão mais maduros do que os brasileiros?

Tendo dito isso, passemos para a análise do belo filme de Damián Szifron. A obra é divida em uma série de curtas que tem como ligação apenas o limite do ser humano, o que o separa de uma moralidade socialmente aceita de um mergulho completo na realização de seu desejo. Como o próprio slogan propõe: “Qualquer um pode perder o controle”. Não acredito que haja uma só pessoa que nunca tenha pensado em quebrar ou explodir o órgão governamental de trânsito, ou de esfaquear alguém que tenha feito algo de muito errado a um familiar, ou se vingar de uma traição amorosa. Através de episódios independentes entre si, Szifron nos coloca em contato com um grupo de personagens que dão eco a estes desejos. Atravessando situações dramáticas, tragicômicas, de suspense, o diretor relata, de fato, a natureza do ser humano. Desvenda o fino e frágil laço da moralidade que tenta – muitas vezes sem sucesso – “cegar” o olhar do homem para com o próprio homem. Hobbes me parece bem conclusivo com a ilustração de que “o homem é o lobo do homem”.

Ricardo Darín como o homem comum de cada dia

Cada episódio tem sua força interna – e não nos cabe discutir cada um deles, mas seu conjunto – que, independente sobre o que tratam ou da forma como abordam o tema, consegue tirar risadas da platéia ou deixá-la apreensiva. A pergunta que me faço constantemente é: seriam essas risadas uma forma de reconhecimento de si mesmo em cada um daqueles personagens? Considero bem difícil uma resposta negativa a esta pergunta. Com um roteiro impecável e uma direção primorosa (sem deixar de lado cada uma das belíssimas atuações, em especial a de Ricardo Darín, este gênio fantástico!), a Argentina nos presenteia – mais uma vez – com uma série de relatos demasiado humanos… e deveras selvagens.

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