Há exatos seis meses, o caga-regra que vos escreve deu início a sua jornada cinéfila neste site justamente com um roteiro de David Desola no excelente e viralizado “O Poço“. Aqui, ao lado de Hèctor Hernández e Carles Torras, ele traz Remédio Amargo, no qual dão uma nova amostra de que é na Espanha onde habitam os melhores suspenses da atualidade.

Embora outros clássicos contemporâneos do gênero como o já referido “O Poço”, “Um Contratempo” e “O Corpo” possam ser colocados, merecidamente, numa prateleira acima, o cardápio da Netflix ganha mais uma boa opção para os adeptos do coração acelerado sem a frescurada do cinema americano.

A premissa já parte de um lugar interessante. O protagonista Ángel (Mario Casas), um profissional de primeiros socorros que não faz a menor questão de ser agradável, vive a bordo de uma ambulância resgatando acidentados entre escombros e ferragens, até se deparar com uma abrupta inversão de papeis.

Logo na primeira parte do filme, é flagrante a intenção do diretor de moldar a personalidade do seu protagonista no limite da linha do socialmente aceitável. Entre um furto e outro a cada resgate, o absoluto desprezo pelas pessoas de modo geral e o comportamento possessivo com a sua namorada, Vane (Déborah François), os traços mais obscuros de Ángel vão sendo revelados a cada olhar sombrio de uma atuação acima da média.

No momento em que, ironicamente, Ángel sofre um grave acidente no exercício da sua profissão, sendo fadado a viver sob as rodas de uma cadeira, toda essa amargura acaba se misturando com as inseguranças do lento processo de adaptação e um personagem repleto de demônios criados por si mesmo passa a sucumbir a sua própria personalidade doentia.

Seguindo um ritmo que, ao meu ver, não é lento e se reveste de tensão durante praticamente todo o filme, nós acabamos sendo imersos nas obsessões cruas da masculinidade tóxica, até sermos afogados pela ótima fotografia que cria no apartamento do casal uma incômoda experiência de aprisionamento.

O pecado capital do roteiro é fazer do ciúmes delirante do nosso protagonista, Bentinho, e da ruptura da relação doméstica abusiva de Vane, Capitu. Simplesmente não deveria haver qualquer espaço para reflexão que suporte a tese de que uma coisa leva a outra.

De pouco importa como eram as interações sociais de Vane. O filme ilustra o florescer da psicopatia de um sujeito obcecado pelo sentimento de posse que exercia sobre a sua companheira, desde as fodas agressivas e os beijos babados fora de contexto, à perseguição sociopata e o cárcere privado.

Colocar Ricardo (Guillermo Pfening), pasme, o motorista da ambulância no fatídico dia do acidente de Ángel, como novo par de Vane, no momento em que a moça finalmente conseguiu se desfazer da relação perniciosa, traz aquele ar de “traiu ou não traiu?” que só faz por justificar o injustificável, exatamente como acontece na vida real. E na vida real morre mulher todo minuto por conta disso.

Como eu acabei ficando bastante estressado com o retorno esdrúxulo de Ricardo à história, eu precisava de um elemento que renovasse as minhas expectativas. E ele veio. Em forma de trilha sonora.

O jogo musical entre “L’Hymne à l’amour” de Édith Piaf e “Un sip of champagne” de Los Brincos, deram um tom lúdico sensacional, e não menos perturbador, às últimas curvas torturantes antes da virada final que de tão clichê, saciou a minha sede de vingança.

Sigo a favor da romantização da psicopatia no cinema. Com bom senso.

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