Acho que foi uma surpresa para todo mundo quando em 2014 a Marvel resolveu que o diretor de “Capitão América 2: Soldado Invernal” não seria um, mas dois: os irmãos Joe e Anthony Russo. Os dois praticamente sempre trabalham juntos e até então nunca tinham feito um filme realmente relevante, mas, do nada, receberam essa tarefa e hoje são responsáveis pelos quase que indiscutivelmente 4 melhores filmes do universo Marvel (“Soldado Invernal”, “Guerra Civil”, “Guerra Infinita” e “Ultimato”). Todo esse sucesso transformou os Russo Bros. em eminência parda de Hollywood, algo como o que aconteceu com os então irmãos (agora irmãs) Wachowski após o sucesso estrondoso da franquia “Matrix”.

Antes disso tudo, contudo, ele havia escrito uma graphic novel chamada “Ciudad” em parceria com Andre Parks, na qual o mercenário Tyler Rake é contratado para resgatar uma garota em Ciudad del Este, merda acontece e então a cidade toda passa querer os dois mortos. Agora que são os fodões da Marvel, eles conseguiram verba para filmar a HQ, mas resolveram que a direção ficaria com o estreante em longas Sam Hargreave, um dublê de bastante renome e sucesso em Hollywood, com o roteiro a cargo de Joe Russo, que deve ter sido quem realmente escreveu a tal graphic novel dentre os irmãos. Resolveram também trocar um lugar fodido por outro e este Resgate se passa em Daca, em Bangladesh.

Enfim, todo esse introito é só porque eu não tenho muito o que falar da sinopse. Ela se resume a uma só sentença: homem resgata menino. E é isso. Há toda uma tentativa de se florear o roteiro ao se construir o protagonista Tyler Rake (Chris Hemsworth, excelente no papel) como um homem atormentado por seu passado militar, algo muito comum em basicamente todo filme sobre veteranos de guerra. Rake quer morrer, quer pagar por seus pecados e por causa disso ele se mete na situação mais impossível que consegue achar a todo momento.

Já o vilão principal é o traficante bengali Amir (Priyanshu Painyuli), que tem um jagunço mau igual ao Pica-Pau e que parece o Sidney Magal (viram o que eu fiz aí?), que sequestra o filho, Ovi (Rudhraksh Jaiswal), de um traficante da Índia sem que a gente entenda muito o porquê dessa animosidade entre dois traficantes de países diferentes a um nível que exige que Ovi ande sempre com a proteção de Saju (Randeep Hooda, também excelente). Paciência, né?

De todo modo, ter um roteiro amarradinho não é a proposta de quase nenhum filme de ação, mas é claro que não faria mal algum se tivesse. Aqui, como manda o figurino dos filmes de ação, a história serve apenas e tão somente como um conduíte para muita, MAS MUITA porrada e gente sendo morta brutal e impiedosamente por Tyler Rake na tentativa desesperada de salvar o menino Ovi e conseguir fazer a tal extração (no sentido contrário de infiltração) que é o título do filme em inglês.

A boa notícia é que a violência aqui tem momentos de absoluto primor e brilhantismo técnico. Há uma determinada cena que envolve tiro, porrada, explosão e perseguição de carro que dura, sem sacanagem, uns 40 minutos e que foi toda filmada para parecer uma tomada só, embora olhos mais treinados consigam ver os momentos dos cortes montados com muita perícia pelos editores Ruthie Aslan e Peter B. Ellis. Essa cena é um ponto alto que dura 1/3 do filme e conseguiria, sozinha, fazer com que o longa valesse a pena, deixando o espectador tenso e na ponta do sofá durante ela inteira. Seu ponto negativo é que o filme jamais volta a chegar a este mesmo nível depois dela, fazendo com que as demais cenas, ainda que também boas, empalideçam em comparação.

Com o advento dos filmes de super-herói, os filmes de ação pura e simplesmente foram meio que relegados a um segundo plano nas grandes bilheterias mundias e vinham sendo cada vez menos produzidos nos últimos 10 ou 15 anos. Uma prova disso é que a principal franquia recente do gênero, “John Wick”, começou com um filme quase independente e que até hoje não tem grandes orçamentos em suas sequências. O lado bom da seca desse tipo de filme é que, na tentativa de chamar mais público e sabendo que não dá pra competir com o Homem de Ferro ou com o Batman, houve uma melhora dramática na porradaria e nas cenas de ação nos últimos anos e Resgate é um belíssimo exemplo disso. Na década de 80 ele teria sido estrelado pelo Dolph Lundgren andando pelas ruas de Bangladesh com uma metralhadora giratória e um machado matando gente como o semideus que ele e seus colegas brucutus sempre eram nas telas. Isso, felizmente, já não cabe mais, com um nível que me parece ser bem mais próximo do real do que o de outrora.

Resgate é sem dúvida o melhor filme de ação original que a Netflix já lançou e vale bem todos os seus 116 minutos (sendo que tem 15 minutos de créditos!). Trata-se de uma produção que tem uma proposta bem clara e a cumpre com bastante competência, apesar da barriguinha no meio quando tenta, sem lá muito sucesso, desenvolver personagem.

Sugestões para você: