Caso você seja aquele otaku antenado, semana passada tivemos o lançamento de “Ingress: The Animation“. Eis que hoje, a NETFLIX, tentando me sabotar uma semana depois de eu reclamar ostensivamente do uso de 3D em animações japonesas, solta a 1a temporada de Revisions, também feito com essa infame técnica. Contudo, assim como eu já quis abordar logo de início a animação medonha de Ingress, sou obrigado a dizer que aqui ela caiu como uma luva e, pior, não acredito que funcionaria tão bem se fosse todo realizado em 2D. Observando com atenção, percebo uma tendência desse tipo de animação encaixando em animes com mechas, como o “Knights of Sidonia” e “Planet With” (ambos indicados em nossos Garimpos), e isso faz muito sentido, já que a minha principal reclamação quanto ao uso da técnica é a falta de vida que a acompanha. Knights, Planet e Revisions se fazem fortemente em cima de mechas elaborados nos mínimos detalhes, com movimentos artificiais, mas fluidos, que dão a impressão que de fato estão sendo controlados por seres orgânicos e que possuem nas suas articulações e textura limitações rígidas, diferentes dos humanos que os pilotam. Mesmo com isso tudo, repito: parem de fazer animações japonesas em 3D! Grato.

Em Revisions temos mechas com designs originais e muito detalhados, que conduzem cenas fortes e moralmente ambíguas numa história com uma certa crítica social, mas com problemas sérios de ritmo. Estamos no ano de 2017 quando um dos distritos mais ricos de Tóquio, Shibuya, é transportado para 2388 por um grupo de humanos chamado Revisionistas, numa realidade pós-apocalíptica varrida por uma doença letal e que disparou uma guerra de proporções bíblicas que praticamente exterminou a humanidade. Essas datas não foram escolhidas a dedo, mas são épocas que se cruzam na linha do tempo, permitindo que essa troca ocorra se induzida por um cérebro quântico artificial do grupo citado. 

Esse cruzamento na linha do tempo também permite que agentes balanceadores da ARH (Antirrevisionismo Histórico, é isso mesmo o que você leu) – pessoas com um cérebro quântico orgânico – viajem para o passado para implantar informações que os ajudem a derrotar os Revisionistas e salvar a humanidade. Eis que conhecemos Milo, uma agente da ARH, que em 2010 salva Daisuke de 8 aninhos de um sequestro, já com informação no futuro que ele e seus amigos seriam de vital importância na luta. Tanto é que os 3 fantoches (mechas) existentes só podem ser conduzidos pelos 5 amigos. Daí para frente começa um desenrolar do roteiro em 3 frentes.

Temos um núcleo político que administra a cidade, no meio de uma guerra entre duas facções moralmente ambíguas, e busca uma forma de voltar para o passado enquanto luta para manter a ordem social e proteger seus moradores. Temos o núcleo Revisionista, que foi de longe o mais interessante de acompanhar e que contava com uma forte crítica (ou assim eu acho) em seu sub-texto. Eles precisam de partes do passado (no caso pessoas) fora de contexto histórico para conseguir sobreviver. Sem querer spoilar a sua diversão, existe um plot twist interessante e que conta com o roubo de células cerebrais e a tal doença que é a crítica mais didática e viajada que já vi sobre a pós-verdade e tudo que se vem falando ultimamente no Brasil. Ou o cara que escreveu essa legenda é um historiador/filósofo ou ele é um dekassegui desgostoso. E, por fim, temos a equipe da cidade que lutava contra os Revisionistas e contava com a ajuda da agente Milo.

E é nesse último núcleo que encontramos o maior problema do anime. Por passarmos mais tempo com a equipe, especialmente com Daisuke, a série foi ganhando uma barriga e um problema de ritmo. Sempre que os Revisionistas apareciam, a história progredia e ficávamos sabendo de eventos instigantes. Contudo, sempre que voltávamos para Shibuy era massacrante acompanhar um protagonista chato para um caralho. Daisuke é egocêntrico e fica que nem uma criança mimada se achando o último biscoito do pacote porque Milo, quando o salvou criança em 2010, colocou em sua cabeça que seria ele quem protegeria seus amigos e a humanidade. Literalmente a cada episódio, nós o vemos dando “chiliquinho” por querer ser o líder e estar predestinado à grandeza, fazendo merda a torto e a direito. Isso cansou e cansou muito. Acompanhamos essa criancice do 1o ao 7o episódio sem praticamente qualquer desenvolvimento da história. Porém, caro leitor, do episódio 8 até o final a obra fica frenética e vale muito o seu investimento de tempo. Falando em tempo, claro que há problemas com paradoxos, já que aqui temos uma linha temporal contínua que se retroalimenta. É difícil de acompanhar e em alguns momentos você tem que aceitar que aquilo ocorre e foda-se.

No mais, Revisions entretém. É mais bem feito do que a média dos animes 3D, a história, mesmo sem ritmo, é instigante, mas seu protagonista quase coloca tudo a perder com horas de beicinho.

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