O cinema de Alfonso Cuáron sempre me chamou a atenção pela capacidade intensamente lírica de extrair um profundo conteúdo humano e íntimo, mesmo enquanto lá fora as demandas da realidade pareçam, falsamente, impedir que as micronarrativas das pessoas se destaquem frente à grandiosidade da História com H maiúsculo. Assim, esse foi o homem que nos levou a uma viagem México afora com dois praticamente adolescentes descobrindo o mundo e a si próprios (entre outras cositas) em “E Sua Mãe Também”, nos guiou na jornada interior de uma astronauta à deriva no espaço no genial “Gravidade”, ressaltou a beleza das veredas dos sentimentos no poderoso e apocalíptico “Filhos da Esperança”, além de ter construído o melhor e mais complexo dos longas da saga Harry Potter, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”. Qualquer um dos filmes de sua bem cuidada carreira poderia ser citado como exemplar de técnica rigorosa, mas, acima de tudo, elevada capacidade de se relacionar com a nossa mais pessoal humanidade. Roma, seu primeiro filme desde 2013 e vencedor do Leão de Ouro em Veneza numa trajetória que vem amealhando prêmios, é o mais pessoal e intenso de sua cinematografia.

Acumulando as funções de diretor, roteirista, diretor de fotografia, editor (juntamente com Adam Gough) e um dos produtores, em Roma, Cuáron executa sua história mais pessoal, já que o filme é totalmente baseado nas suas lembranças de infância. No turbulento México de 1970-1971, a vida de Cleo (vivida pela desconhecida e dona de uma das maiores performances do ano Yalitza Aparicio), uma empregada na casa de uma família rica no bairro de Roma, é mostrada através das dores, alegrias e reviravoltas que, muitas vezes, passam despercebidas nos microcosmos de nossas relações. E, digo logo, que filme, senhores, que filme.

Tecnicamente o longa é uma vitrine de perfeição e esmero cinematográfico. Começando pela poética fotografia em preto-e-branco, intensificada por um trabalho de iluminação minucioso, que dá ares fellinianos aos labirintos de Cleo e das memórias de Cuáron. A imagem na tela é um carinho para os olhos do espectador. Tanto que, sendo uma produção da Netflix e, logo, disponível para streaming, duvido que você não se pegue pensando muitas vezes em como ele deveria ficar deslumbrante numa tela de cinema. Aliás, espertinha como sempre, Dona Netflix fará sessões especiais para a exibição em cinemas no Rio e em São Paulo.

Outra coisa de encher os olhos são os longos planos quase sem cortes que, apoiados na fotografia, em magníficos ângulos de câmera e em um desenho de produção genial, conduzem a narrativa de forma assaz íntima e reverberam na linda edição que imprime um ritmo lírico-poético ao longa. Bonito demais o jeito como a montagem das cenas apoia o memorialismo da história e mostra como o “de fora” e o “de dentro” se misturam nas nossas vidas. A câmera de Cuáron se movimenta como se um olho consciente olhasse as coisas sabendo que o real de hoje será a memória de amanhã e fosse preciso umedecer a crueza das pupilas do cotidiano com colírio de poesia.

Poesia que escorre também dos diálogos do ótimo roteiro, das atuações delicadas do azeitado elenco e, acima de tudo, do intenso, enérgico e mais que tocante trabalho de Yalitza Aparicio. Sua Cleo constrói uma cumplicidade com todos os outros núcleos da história, mas, principalmente, Yalitza consegue erguer uma cumplicidade com o filme em si. É um daqueles casos em que uma atriz se transforma no filme, em que a carpintaria do ator constrói, mais que um personagem, uma narrativa viva.

Tão viva, aliás, que Roma consegue se conectar totalmente ao espectador por ser tão humano. Os temas do filme são os “nossos” temas: sentimentos, solidão, exclusão, família, trabalho. No caso do espectador brasileiro, então, essa conexão se dá com mais força. Foi incrível (e doloroso em algumas cenas) perceber como as relações de uma “sociedade de castas”, principalmente na questão das empregadas domésticas, revela tanto sobre como alguns países são por dentro.

Alfonso Cuáron erigiu um monumento de rara beleza e relevância com esse longa. Leitor Metafictions, abra a sua Netflix agora e se embrenhe nessa beleza. E é bom lembrar que, tanto em espanhol quanto em português, de trás pra frente, ou num espelho-tela, Roma vira amor.

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