Se pegarmos um tempo para analisar tão brevemente a História da Humanidade, teremos a plena sensação de que a História é cíclica. Tome, por exemplo, poucas décadas e perceba o quanto o ser humano, em sua micro ou macro História, tende a voltar para o mesmo ponto anterior. Quase como um gado sem a noção do livre arbítrio, que volta ao pasto, mesmo com a cerca aberta. Teoricamente, o humano é consciente e ele poderia mudar sua jornada, chegando a conclusões diferentes e não atingindo, ano após ano, o mesmo destino. Mas lá está ele, uma vez mais, de volta ao ponto de partida, sendo este, a um só tempo, sua chegada. Mas será que, definitivamente, cabe única e exclusivamente ao indivíduo o caminho a percorrer? Como se um zombeteiro, o destino (a “entidade” e não o ponto de chegada) – para aqueles que acreditam – parece fazer dos homens seus joguetes, não importando as decisões que assumam, fazendo-os encontrar o mesmo lugar de sempre. Se você tivesse escolhido a outra opção, para onde ela te levaria? A nova série catalã da Netflix mergulha fundo nesses questionamentos.

Se Eu Não Tivesse Te Conhecido nos conta a história, em 10 episódios de cerca de 50min, de Eduard (muito bem por Pablo Derqui, de “A Catedral do Mar“), um pai de família que trabalha em uma empresa sólida e tem um alto cargo. Todos os dias ele volta para casa, para sua mulher Elisa (em boa apresentação de Andrea Ros), professora de História da Arte, e seu casal de filhos. Como toda família, há discussões e pequenos conflitos, uns mais banais do que outros. Mas a banalidade pode resultar em algo muito maior. Lembra da teoria do efeito borboleta? Um bater de asas fora de tempo por uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo. Pois bem, o pequeno conflito que, de cara, se instala naquela casa é o fato de Eduard ter que viajar a trabalho e não querer emprestar seu poderoso e moderno Jeep para a mulher levar os filhos na escola, no dia seguinte. Dessa forma, Elisa, na manhã pretendida, pega seu rebento no seu pavoroso carro antigo, que solta uma fumaça tão densa que nos lembra imediatamente daquela Entidade de Lost, e segue o caminho de todos os dias. Apesar de não sabermos porque uma família assim abastada tem um carro tão horroroso, contemplamos, portanto, o resultado dessa insistência: um acidente tira a vida dos três. Eduard, culpado por si próprio, não tem mais ganas de viver. O seu tufão fora concebido.

A ponte para o outro lado.

Quando, disposto a não mais seguir nessa vida com tamanho fardo, Eduard tenta se jogar na linha do trem, uma mulher misteriosa que aparecera completamente do nada no local, a senhora Everest (em sutil atuação de Mercedes Sampietro), impede-o de continuar no ato. Levando-o à sua casa, ela mostra um dispositivo criado que permite a viagem por universos paralelos. Desejoso por poder reencontrar os familiares, Eduard embarca nessa insólita proposta. É preciso entender, porém, que a série não procura definições ou teorias plausíveis para a ideia de universos paralelos. Nesse momento, o conto toma uma roupagem de fantasia, mas que se mantém tão somente no ato exclusivo desse passeio por possibilidades diferentes. O restante da narrativa não flerta, em momento algum, com qualquer outro elemento fantasioso, ficando restrito à própria ação de “caminhar” pelas diferentes jornadas daqueles mesmos personagens. A ideia central, percebe-se, não é enveredar também por este assunto (tão bem abordado por um sem-número de filmes sci-fi); o foco principal da série catalã é nos mostrar como acontecimentos diferentes, em supostos universos paralelos, podem nos transformar psicológica e emocionalmente, criando novos horizontes de expectativas. Mais do que qualquer outro gênero, estamos a assistir uma história de drama, com momentos de romance e mistério.

O grande destaque da série reside em tentar responder, através das diversas possibilidades apresentadas, como seria a vida do indivíduo se pequenos detalhes e decisões mínimas tivessem sido escolhidos em detrimento das outras. No entanto, na visão de seus criadores, parece-nos que a mão do destino traz consigo elementos imutáveis, imputando aos seus personagens sempre uma via que leva praticamente àquele ponto de início/conclusão. A discussão que sobressai é a mesma que a da introdução: seria o ser humano, portanto, como o boi, a caminhar em círculos, saltitar de lá para cá, comer, dormir e, então, repetir tudo da mesma forma? Ainda que a cerca esteja aberta, ignorá-la para seguir no caminho diário que leva ao lugar comum? Para os que se vêem como atores principais de suas vidas, não aceitando a ação de algo imperceptível, o sedutor poder de escolha pode se tornar uma maldição que congela, já que até mesmo pequenas escolhas são capazes de gerar tufões concretos. Para os que entendem a mão do destino como definitiva, pouco importa o que se decida, já que o resultado não é tão diferente. O universo paralelo surge, então, como alterações de uma mesma trama, regada às mesmas características, mudando um trecho ou outro de um roteiro previamente escrito.

O tempo entre eles.

Ensaiando respostas a esses problemas tão recorrentes em nosso pensar, a série catalã consegue, a um só tempo, colocar em paralelos não apenas os mundos individuais de seus personagens, mas também esse universo tão maior e mais recheado de detalhes no qual existimos. Diversas são as passagens em que o “ser do futuro” fala sobre o já conhecido – por ele – passado, destrinchando lutas políticas, sociais e econômicas, uma vez mais fazendo o espectador ter a clara sensação de que o que está a acontecer hoje já ocorreu no passado e o que se entende como futuro nada mais será do que um passado que assim se tornará a imagem e semelhança daquele ainda mais antigo. Mais do que isso, o drama denso que se desenvolve nas sequências são ainda mais importantes do que o debate temporal ao mergulhar fundo na transformação de um personagem a partir das suas perdas e de suas conquistas. Crentes ou não no destino, somos seres constituídos de emoção, sentimento e sensação. Sentimos, logo existimos.

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