Faz algum tempo que eu escrevi aqui um artigo sobre um dos filmes favoritos da minha infância, o frequentador da Sessão da Tarde “Um Príncipe em Nova Iorque“. Nele, Eddie Murphy e Arsenio Hall interpretam 4 personagens cada, um mais engraçado que o outro. Analisado sem os aspecto nostálgico da coisa, “Um Príncipe em Nova Iorque” é um filme incrivelmente irregular, mas que encontra no talento cômico de Murphy e Hall seus pontos absurdamente altos, o que faz com que seja um filme referenciado até hoje pelo mundo todo. Alguns anos depois, Eddie Murphy continuaria essa sua tradição de fazer duzentos personagens num só filme com “O Professor Aloprado” (e mais outras desgraças), outro longa também irregular para um cacete, mas que ficou na história justamente pelo talento de Murphy em interpretar tanta gente engraçada ao mesmo tempo.

Então vieram os anos 2000, a família Wayans (Keenen Ivory, Marlon, Damon, Shawn e sei lá mais quantos) começou sua escalada ao topo do mundo da comédia merda com a paródia realmente engraçada “Todo Mundo em Pânico”, seguida por sucessos absurdos como “As Branquelas” e “Todo Mundo em Pânico 2” e mais um sem número de filmes e séries de TV. O que essas produções têm em comum é basicamente que são em sua maioria de péssima qualidade, com um humor exagerado, espalhafatoso e, em geral, bobo. Contudo, mesmo nas piores obras dessa família, a gente sempre conseguia lembrar de uma cena ou outra que nos fazia rir. Quem não se lembra do Latrell, por exemplo?

Todo esse intróito serve para dizer uma coisa tão somente. O mais novo filme da família Wayans, Seis Vezes Confusão, tem Marlon Wayans – indiscutivelmente o mais famoso e talentoso dos irmãos Wayans, capaz de papéis muito mais densos como o de “Réquiem para um Sonho” – interpretando diversas pessoas como Eddie Murphy e segue a mesma linha das obras anteriores da família Wayans, com a diferença de que NÃO HÁ ABSOLUTAMENTE NADA DE ENGRAÇADO AQUI. É sério. Não há sequer uma cena que se salve e nenhum dos personagens que Wayans interpreta é minimamente memorável. Trata-se de um filme abominável, que não consegue cumprir absolutamente nada do que se propõe.

A trama até mostra alguma promessa para um tipo de filme desses. Com a mulher grávida, o certinho Alan resolve buscar informações sobre sua família, já que ele havia sido abandonado quando criança. Com isso, ele descobre que na verdade é um de seis irmãos gêmeos, os tais sêxtuplos do nome original, e aí sai pelo estado da Georgia em busca dessa família. É um enredo que até poderia render algumas piadas interessantes, alguma graça, mas que, nas mãos do roteiro dantesco assinado também pelo próprio Marlon Wayans e com uma direção bisonha de Michael Tiddes, faz com que tenhamos aqui só 100 minutos de nada, de gente (e por gente eu me refiro ao Marlon Wayans) indo de um lado pro outro fazendo uma força danada para ser engraçada e fracassando miseravelmente o tempo todo.

Até a maquiagem, que deveria ser o ponto alto de um filme desses para diferenciar os vários irmãos, todos interpretados por Marlon Wayans, peca. Ela até acerta em alguns, mas erra bizarramente em outros, permitindo que a gente veja a marca da prótese na cara do ator ou, em um personagem que só aparece no final, dando a impressão de que o rosto da pessoa é uma caixa igual ao rosto do titio avô (google, seus velhos). O mesmo vale pros efeitos especiais necessários pra fazer com que várias pessoas interpretadas pelo mesmo ator possam parecer na mesma cena. Há um momento no final do filme em que tá todo mundo reunido em tive a impressão que o Chapolin ia aparecer montado num aerolito a qualquer momento.

Enfim, evite. Seis Vezes Confusão é um filme bobo, infantilizado e sem graça no sentido de que é incapaz de fazer rir. Ao tentar se fiar exclusivamente no talento cômico de Marlon Wayans, sem qualquer atenção a todos os demais aspectos que tornam uma obra audiovisual assistível, o filme se torna apenas um veículo para que ele, um comediante extremamente esporrento e exagerado, se mate na tela com seus personagens que são extremamente estereotipados ou bizarramente sem qualquer sal.

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