Pelo menos desde o seminal “Ao Mestre com Carinho”, que lançou o hoje mitológico Sydney Poitier a um polêmico e quebrador de paradigmas estrelato, Hollywood aposta na fórmula do professor desacreditado que tenta fazer a diferença na vida de alguns jovens, em geral marginalizados, mesmo indo contra tudo e todos. Além do filme já mencionado, temos aí esta formuleta sendo usada em filmes tão díspares quanto o nostálgico “Curso de Verão”, o popularíssimo “Mentes Perigosas” (com Michelle Pfeiffer e um dos maiores clássicos da história do Hip Hop em sua trilha) e o independente “Half Nelson: Encurralados”, estrelado pelo sonho molhado do meu querido sócio e redator do site Rene Vettori.

Da França, contudo, eu nunca tinha visto nada parecido. O que talvez se explique pelo fato de que a França era um país com um nível de desigualdade social enormemente inferior ao dos Estados Unidos, talvez também seja um sinal dos tempos em que vivemos, nos quais a desigualdade social vem disparando no mundo todo, em especial em países que aparentavam tê-la quase que erradicado por completo algumas décadas atrás. Seja lá qual for a razão, o fato é que a França hoje tem conhecimento de causa para fazer este tipo de filme e, sendo este um filme francês, ele jamais poderia seguir perfeitamente a lógica americana.

Por exemplo, as circunstâncias que levam o trambiqueiro Wael (Kheiron, que também produz, dirige e assina o roteiro do filme) a se tornar o tal professor são, no mínimo, curiosas. Wael e sua amiga, na falta de termo melhor, Monique (pela lendária Catherine Deneuve), vivem de dar alguns golpes meia boca em Paris quando, por consequências talvez um tiquinho forçadas de um golpe mal-fadado, se veem obrigados a trabalhar para o gente boa Victor (André Dussollier), que comanda uma espécie de organização beneficente que tenta recuperar crianças reprovadas. Então, ao invés dos moleques metido com o tráfico de drogas e assassinatos dos EUA, temos aqui crianças que simplesmente não passaram de ano e estão meio que sendo punidas por isto ficando durante as férias na escola. Wael, o arquétipo perfeito do malandro adorável, mais uma vez por força de circunstâncias um pouco forçadas, é colocado como o sujeito a olhar os adolescentes neste tempo.

Ainda que os clichês de sempre estejam presentes, o roteiro e a direção de Kheiron conseguem levar a obra por caminhos diferentes, a começar pela estrutura narrativa que, desde o início, traça paralelos entre a infância de Wael enquanto uma criança perdida em algum país destes que sempre estão em guerra e que produzem órfãos aos montes e o momento atual, em que ele claramente se vê nessas crianças, ao mesmo tempo que serve como uma espécie de tapa na nossa carinha fofa e bem alimentada de quem está assistindo a este filme em seu televisor 4K de 60 polegadas e comendo pipoca doce.

Para além disso, ele foca bem mais nos sentimentos e na certeza batida, ainda que absoluta, de que só o amor, a empatia e o conhecimento podem triunfar sobre a vilania, a intolerância e a ignorância, ainda que o faça em detrimento do desenvolvimento de alguns dos personagens. Felizmente, o foco é dado em Wael e Kheiron é um daqueles monstros de carisma que meio que abrilhantam a tela só de estar nela. Não fazia ideia de quem ele era, mas não me surpreende saber que se trata de um comediante de estrondoso sucesso na França.

E, mais, aquilo que havia começado como uma comédia meio água com açúcar apresenta elementos de uma densidade e de um horror absolutos, mitigados sim pela direção de Kheiron a la Roberto Benigni em “A Vida É Bela”, mas pesadíssimos mesmo assim, transformando o longa em um drama em que o destaque ao pequeno Aymane Wardane, que interpreta Wael criança, não pode deixar de ser dado.

Temos aqui um bom filme, que pega uma fórmula americana bem batida e dá o tempero franco-persa de Kheiron, resultando em 100 sólidos minutos de entretenimento, comentário social e alguns momentos em que seus olhos inexplicavelmente suarão como os meus.

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